O Itaú confirmou, com a solenidade de quem anuncia o cardápio de um velório, que fechou acordo envolvendo ativos do BRB, o Banco de Brasília. A transação, segundo o próprio Itaú, trata de "valores imateriais". A expressão é primorosa. "Imateriais" é o adjetivo que o mercado financeiro usa quando quer dizer que o valor é grande demais para ser dito em voz alta, ou pequeno demais para justificar o barulho, mas em ambos os casos conveniente demais para ser explicado com clareza. Quando um banco privado de dois trilhões em ativos se senta à mesa com um banco estatal e a única coisa que sai da reunião é um comunicado que poderia ter sido redigido por um estagiário de relações públicas, o cidadão com dois neurônios funcionais deveria começar a fazer perguntas.
O BRB não é um banco qualquer. É o banco do Distrito Federal, ou seja, é um banco que existe porque o governo de Brasília decidiu, há décadas, que além de cobrar impostos, regular o sistema financeiro, definir taxa de juros e imprimir moeda, o Estado também precisava operar uma instituição bancária própria, porque aparentemente o mercado com seus duzentos e tantos bancos não dava conta do recado. O BRB é a criatura perfeita do capitalismo de Estado: não precisa ser eficiente porque tem o Tesouro do DF como colchão, não precisa competir de verdade porque tem a folha de pagamento do funcionalismo como cliente cativo, e não precisa prestar contas como um banco privado porque seus acionistas são políticos cujo horizonte de planejamento termina na próxima eleição. É nesse contexto que o Itaú aparece com um acordo envolvendo "ativos" desse banco. A primeira pergunta é óbvia: que ativos? A segunda é mais interessante: a que preço? A terceira é a que ninguém vai responder: quem autorizou e o que ganhou com isso?
A história do capitalismo brasileiro é uma longa novela de casamentos arranjados entre o dinheiro privado e o poder público, e o dote sempre sai do bolso de quem não foi convidado para a festa. Quando a Telebrás foi privatizada, o contribuinte bancou décadas de prejuízo estatal para que o setor privado comprasse a noiva já arrumada. Quando os bancos estaduais quebraram nos anos noventa, o Proer e o Proes socializaram os rombo e privatizaram os lucros. O padrão é tão antigo que já deveria ter nome próprio: o Estado constrói, o Estado sangra, o Estado vende barato, e o comprador agradece com um comunicado ao mercado dizendo que se trata de "valores imateriais". O Itaú, que é dirigido por gente competentíssima para farejar oportunidade, sabe perfeitamente o que está comprando. Se chamou de imaterial, é porque o material da coisa toda é bom demais para ser anunciado.
Há um detalhe que merece atenção cirúrgica. O BRB vinha, nos últimos anos, expandindo operações, comprando carteiras, e se posicionando como um banco "competitivo". Ora, banco estatal competitivo é uma contradição em termos, como um vegetariano que só come carne nos fins de semana. A competitividade do BRB sempre foi artificial, sustentada por dinheiro público, por contratos garantidos com o governo distrital, por uma clientela que não escolheu estar ali. Se agora o Itaú quer parte dessa estrutura, o que está em jogo não são "valores imateriais", são carteiras de crédito, bases de clientes, contratos, infraestrutura, tudo construído com dinheiro que não pertencia a nenhum dos dois sentados à mesa. Pertencia a você, que paga ICMS, IPTU, IPVA e mais quarenta siglas que foram inventadas para que burocratas pudessem brincar de banqueiro.
O silêncio em torno dos detalhes é, como sempre, a parte mais eloquente da história. Se o acordo fosse irrelevante, não teria comunicado. Se fosse transparente, teria números. O que temos é o pior dos mundos: um anúncio vago o suficiente para cumprir a regulação e opaco o suficiente para esconder a substância. E enquanto o mercado digere o comunicado e os analistas escrevem relatórios dizendo que "faz sentido estratégico", ninguém pergunta ao contribuinte de Brasília se ele gostaria de opinar sobre o destino dos ativos do banco que ele, involuntariamente, ajudou a capitalizar. Porque essa é a regra não escrita do jogo: quando o Estado compra, é investimento público; quando o Estado vende, é eficiência de mercado; e em ambos os casos, quem paga é o mesmo sujeito que nunca é consultado. O Itaú sabe o que faz. O BRB faz o que mandam. E o contribuinte, como sempre, descobre pelo jornal que seus ativos eram, afinal, bastante materiais.
Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.