O Itaú, que normalmente engole sapo de cliente lucrativo com a paciência de um confessor jesuíta, levantou da cadeira, recolheu os talheres e mandou a advogada e influenciadora Deolane Bezerra almoçar noutro lugar. Encerrou as contas dela, as dos parentes e as do enxame de empresas que orbitam o sobrenome, alegando ter farejado um ecossistema de movimentações suspeitas. Repare na escolha da palavra. Ecossistema. Não é uma transação atravessada, não é um saque mal explicado, é uma floresta inteira de dinheiro circulando entre CPFs aparentados e CNPJs convenientes, cada um regando o outro como se fosse mata atlântica de boa vontade.
O detalhe saboroso é o protagonista da expulsão. Banco não fecha conta de cliente bom por capricho moral. Banco fecha conta quando o custo regulatório de manter o sujeito ali supera a comissão que ele gera, e isso só acontece quando o sinal vermelho está piscando tão forte que ofusca o letreiro do Banco Central. Quer dizer, a instituição que cobra spread de agiota grego, que enfia tarifa em cada respiração do correntista, que aceita até motoboy endividado fazendo PIX para casa de apostas, esta mesma instituição olhou para a movimentação e disse, com a delicadeza de um leão de chácara, que ali não dava mais. Não foi consciência cívica, foi cálculo de risco. E quando o cálculo de risco do Itaú decide que você é caro demais, meu caro, a conta não fechou, ela já tinha estourado faz tempo.
Sigamos a trilha, que é o único exercício honesto neste tipo de história. De um lado, uma economia digital de jogos online, lives, sorteios e parcerias publicitárias que despeja rios de reais em contas físicas com a velocidade de um cano rompido. Do outro, um Estado que durante anos olhou para o setor de apostas como o gato olha para a geladeira aberta, fingindo distração enquanto lambia os beiços, até resolver regulamentar quando o caixa próprio bateu na porta pedindo a sua fatia. No meio, influenciadores transformados em vitrine ambulante, recebendo cachês principescos para empurrar bets a um país onde o salário mínimo não paga aluguel. A pergunta que se evita fazer é simples como tabuada. Quem paga essa festa toda, e em troca de quê?
Paga, no fim, o sujeito que perdeu o décimo terceiro na roleta eletrônica acreditando que ia virar empresário copiando o estilo de vida postado no feed. Recebe o influenciador, recebe a casa de apostas, recebe o intermediário do contrato publicitário, recebe o banco que processa cada centavo da operação, recebe o fisco que vai aparecer no terceiro ato com o discurso indignado de quem nunca esteve na plateia. É a velha mecânica do truque de cartola, em que o público aplaude o coelho sem perceber que o mágico tirou a carteira dele do bolso de trás. E quando o truque desanda, sempre desanda, o roteiro é igual ao de todos os outros escândalos desde que o mundo é mundo. Surge o vilão fotogênico, a opinião pública lincha o personagem, e a estrutura que produz o personagem segue intocada, esperando o próximo elenco.
A indignação seletiva é um espetáculo à parte. Os mesmos comentaristas que toleraram durante anos a chuva de comerciais de aposta nos intervalos do futebol, que aplaudiram a regulamentação como modernização do mercado, que trataram o crescimento absurdo das bets como prova de pujança digital, agora descobrem, escandalizados, que dinheiro suspeito circulava nas pontas. Espantoso. É como descobrir que cassino atrai jogador, que botequim atrai bêbado, que vela acesa atrai mariposa. A natureza das coisas não se desfaz porque a manchete fingiu surpresa. Onde o lucro é desproporcional ao esforço produtivo, a fila para lavar e relavar dinheiro se forma antes mesmo da fita ser cortada na inauguração.
O fechamento das contas, portanto, não é o fim da história, é apenas o momento em que o cenário cai e a plateia vê o andaime. O caso individual interessa menos do que o arranjo que o produziu. Enquanto o cidadão comum precisa justificar com três comprovantes a transferência da pensão da mãe, ecossistemas inteiros de movimentação financeira floresceram sob holofotes, com bênção publicitária, padrinhos políticos e silêncio cúmplice de quem deveria fiscalizar. O banco recuou porque o risco azedou. O resto do circo, esse continua armado, vendendo ingresso para o próximo número. Quem paga, segue pagando. Quem recebe, troca de fantasia e volta ao palco.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.