O Itaú Unibanco anunciou a emissão de R$5 bilhões em letras financeiras, e a imprensa econômica trata o fato com aquela reverência protocolar reservada aos comunicados dos poderosos, como se fosse notícia de coquetel diplomático. Nada de perguntar por que o maior banco privado da América Latina precisa captar cinco bilhões a essa altura do campeonato, nem para onde esse dinheiro vai. A letra financeira, essa criatura peculiar do ordenamento tupiniquim, existe para permitir que o banco pegue dinheiro dos investidores institucionais sem os incômodos regulatórios que o depósito comum carrega, num arranjo tão conveniente que só falta um laço de fita.

Quer dizer, enquanto o padeiro da esquina paga taxa de dois dígitos por mês para descontar duplicata e o microempresário se enforca no cheque especial a taxas que fariam corar um agiota do Cazaquistão, o Itaú capta bilhões numa canetada, remunera investidor grande a preço camarada e depois empresta esse mesmo dinheiro para o cidadão comum multiplicando o spread por dez, quinze, vinte vezes. Isto não é livre mercado, isto é uma engenharia jurídica montada em cima de décadas de lobby, dentro de um regime bancário que decidiu, faz tempo, quais são os poucos que podem brincar de banco e quais são os muitos que servem apenas de matéria-prima da colheita.

Olha, o sujeito ingênuo dirá que o Itaú é um banco privado e portanto está fazendo o que qualquer empresa privada faria, e o sujeito ingênuo estaria confundindo alhos com bugalhos. Banco no Brasil não é empresa privada no sentido honesto da palavra, é concessionária de um monopólio protegido pelo Banco Central, alimentada pelo Tesouro via títulos públicos que rendem sem risco, e blindada por uma barreira regulatória tão espessa que a última vez que alguém tentou fundar um banco de verdade neste país o cara desistiu antes de encher a segunda pilha de formulários. O oligopólio bancário brasileiro é filho legítimo do Estado, e o Estado brasileiro é sócio silencioso de cada spread cobrado no cartão de crédito.

Me diz uma coisa, se cinco bilhões saem do bolso dos investidores institucionais e caem no caixa do banco a uma taxa civilizada, por que essa mesma civilidade não aparece no momento em que o dinheiro sai do caixa do banco em direção ao tomador final? A resposta é simples e todo mundo finge não saber: porque não há concorrência de verdade, porque o Banco Central regula a entrada, porque o compulsório e as regras prudenciais foram desenhados para acomodar os grandes e sufocar os pequenos, e porque o governo depende dos bancões para financiar sua bagunça fiscal. É simbiose, não competição.

E há o detalhe que ninguém quer olhar de frente, que é o custo invisível dessa engenharia. Cada real captado pelo banco a juro subsidiado pela estrutura regulatória é um real que não financiou uma pequena fábrica em Caruaru, uma padaria em Feira de Santana, uma oficina em Bento Gonçalves. O crédito no Brasil é caro para quem produz porque é barato para quem intermedia, e é barato para quem intermedia porque o sistema foi montado exatamente assim. A letra financeira do Itaú não é escândalo isolado, é rotina, é o metabolismo normal de um capitalismo de compadrio que aprendeu a usar linguagem técnica para disfarçar o que na origem sempre foi privilégio.

Enquanto o brasileiro médio paga a conta do jantar dos senhores, os senhores emitem letras financeiras e brindam com a certeza tranquila de que amanhã vão emitir mais cinco bilhões, e depois de amanhã mais dez, e o Banco Central continuará chamando isso de mercado saudável. Saudável para quem, ninguém pergunta.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.