O fato é simples e dispensa ornamentos: Janja da Silva, primeira-dama da República Federativa do Brasil, mantinha interações regulares com o perfil Choquei, um dos maiores agregadores de fofoca das redes sociais, entre 2022 e 2023. Comentava publicações, engajava com o conteúdo, conferia ao perfil o verniz de proximidade com o Palácio do Planalto. O dono desse mesmo perfil acaba de ser preso pela Polícia Federal. As interações viralizaram, como viraliza tudo aquilo que o poder gostaria de enterrar no silêncio. E agora o Planalto finge que nunca ouviu falar do sujeito, como faz todo político apanhado em má companhia: nega a foto, desconhece o nome, nunca esteve naquele jantar.
Há algo de profundamente revelador quando a esposa do presidente não consegue manter distância nem de um perfil de fofocas na internet. Não se trata de moralismo barato sobre com quem alguém interage no Instagram. Trata-se de entender a mentalidade de quem habita o poder no Brasil contemporâneo. A primeira-dama, que viaja em comitivas oficiais, opina sobre política externa, participa de cúpulas internacionais e consome dinheiro público em deslocamentos que fariam corar um sheik, dedicava parte do seu precioso tempo a comentar publicações de um fofoqueiro digital. Isso não é acidente. Isso é retrato. A frivolidade não é um defeito pessoal, é o método de uma classe dirigente que confunde o Estado com o próprio quintal e trata a coisa pública com a mesma seriedade com que se escolhe filtro de stories.
A pergunta que ninguém faz, porque no Brasil a pergunta incômoda é tratada como crime de lesa-majestade, é a seguinte: como se forma o ecossistema de influência ao redor do poder? Perfis como o Choquei não existem no vácuo. Eles sobrevivem de engajamento, e o engajamento de uma primeira-dama não é favor gratuito, é capital político. Todo like de quem mora no Alvorada vale mais do que o de um anônimo qualquer. Quando Janja comentava naquele perfil, não estava fazendo turismo digital; estava irrigando uma rede de influência, conferindo legitimidade a um operador de opinião que alcançava milhões de pessoas. Se isso era ingenuidade, o contribuinte que financia o aparato de segurança e assessoria da primeira-dama deveria exigir seu dinheiro de volta. Se não era ingenuidade, a coisa é ainda pior.
Observem o padrão, porque ele se repete com a regularidade de um relógio suíço em toda a história do poder no Brasil: a proximidade com o Estado atrai todo tipo de oportunista, e o Estado brasileiro, com sua generosidade infinita para consigo mesmo, nunca se preocupa em filtrar quem se aproxima, desde que o aproximado sirva à narrativa do momento. Ontem o dono do Choquei era útil, um megafone popular que humanizava a imagem do casal presidencial perante a audiência jovem e conectada. Hoje é um preso da Polícia Federal, e o Planalto trata o caso com a mesma elegância de quem empurra o cadáver para debaixo do tapete antes que a visita chegue. A velocidade com que o poder descarta seus antigos aliados só é superada pela velocidade com que os adota.
O episódio, no fundo, é uma miniatura perfeita de como funciona a República brasileira. O dinheiro do contribuinte sustenta um aparato de imagem, comunicação e influência que opera nas sombras das redes sociais. A primeira-dama, sem cargo eleito, sem mandato, sem prestação de contas, sem nenhuma das amarras que teoricamente justificam o exercício do poder democrático, movimenta-se com desenvoltura imperial pela esfera pública, distribui relevância a quem lhe convém e depois finge surpresa quando o agraciado se revela um problema. O povo paga a conta, como sempre. Paga o salário, paga a comitiva, paga o avião, paga a assessoria que deveria ter evitado esse constrangimento e não evitou. Quem recebe? Quem sempre recebeu: os que estão perto o suficiente do trono para se servir, até o dia em que a PF bate à porta e a corte finge amnésia coletiva.
Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.