O espetáculo começou como propaganda e terminou como metáfora. Dois caças militares, brinquedos de 67 milhões de dólares cada um, se atracaram no ar acima da Base Aérea de Mountain Home, em Idaho, durante um daqueles show aéreos em que a máquina de guerra se fantasia de circo para arrancar palmas de famílias com pipoca na mão. O resultado foi previsível para quem não acredita em milagre: 134 milhões de dólares, ou 678 milhões de reais na cotação que dói, transformados em sucata fumegante diante das câmeras. A diferença entre a tragédia e a comédia, dizia o velho dito, é a distância. Da arquibancada, deu pra ver tudo de pertinho.

Há uma honestidade brutal naquele instante em que duas aeronaves se chocam. Por dois segundos, o cidadão americano viu, em alta definição, o destino real do dinheiro que sai do contracheque dele todo mês. Não foi hospital, não foi escola, não foi estrada. Foi titânio e querosene queimando em formação acrobática para entreter a plateia que paga a festa sem saber que paga. Quem assina a fatura é o pagador de impostos de Iowa, de Wyoming, de Idaho. Quem recebe o cheque são os contratantes do complexo industrial militar, que vendem o avião, vendem a peça de reposição, vendem o próximo avião, vendem o treinamento do piloto, e, agora, vão vender também a substituição do que virou confete no céu. O acidente, longe de ser problema, é oportunidade. Sucata vira pedido de compra.

O argumento sempre vem embalado em bandeira. Defesa nacional, dissuasão, prontidão de combate. Só que aquele voo de domingo não dissuadiu inimigo nenhum, não defendeu fronteira nenhuma, não treinou nada que se aproveite numa guerra de verdade. Foi marketing. Foi propaganda institucional em forma de loop e tonneau, projetada para que a criança de oito anos cresça achando bonito o uniforme e natural o orçamento. É a velha técnica do imperador que desfila a cavalaria pela praça para que o povo esqueça quanto custou ferrar os cavalos. Os romanos faziam, os faraós faziam, e o Pentágono, herdeiro fiel da tradição, faz com bafômetros de Mach 1.

Repare na lógica que sustenta o arranjo. Se o orçamento é gigante, é porque a ameaça é gigante. Se a ameaça é gigante, o orçamento precisa crescer. Se nada acontece, a dissuasão funcionou e merece mais verba. Se algo acontece, falhamos por falta de verba e precisamos de mais. É o moto perpétuo da burocracia armada, uma máquina lógica em que toda hipótese conduz ao mesmo resultado contábil, que é encher mais o cofre. O acidente em Idaho entra nessa engrenagem como combustível, não como obstáculo. Daqui a três meses haverá audiência no Congresso pedindo modernização da frota, e o vídeo da colisão será exibido como prova de que os equipamentos estão velhos e precisam de substitutos novinhos, mais caros, mais sofisticados, mais lucrativos para quem fabrica.

O mais delicioso na história é que ninguém se atreve a chamar pelo nome. Show aéreo militar é, traduzido para o vernáculo do contador, festa beneficente do fornecedor pago com dinheiro alheio. Se a Ford resolvesse esmagar dois Mustangs por mês numa praça pública para mostrar como o produto é robusto, os acionistas linchavam a diretoria. No setor público, faz o contrário: quanto mais caro o desastre, mais comovida a comissão de orçamento. Prejuízo privado é falência. Prejuízo estatal é justificativa para suplementação. As coisas, no fim, são exatamente o que são, por mais que a banda toque alto e os fogos espoquem no intervalo.

Resta a pergunta que abre e fecha qualquer análise honesta dessas exibições piromaníacas. Quem pagou os 134 milhões que viraram fumaça em Mountain Home? O sujeito anônimo que trabalha turno duplo numa fábrica em Ohio e nunca pisou numa base militar. Quem recebeu? Os mesmos de sempre, aqueles cujos nomes não aparecem na notícia mas aparecem religiosamente nas planilhas trimestrais do Pentágono. O resto é trilha sonora.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.