A cena se repete todo trimestre com pontualidade britânica. Um banco de investimento, no caso a Jefferies, publica sua lista de ações preferidas do setor de energia e utilities para a temporada, e o mercado engole a recomendação como se estivesse recebendo revelação divina do alto do Sinai. Nomes são citados, tickers sobem, analistas de sofá refazem carteira, e ninguém para para perguntar a única coisa que interessa: por que essas empresas específicas, e não outras, aparecem no topo do ranking justamente agora, no outono de 2026, com o governo americano prometendo mais um pacote de infraestrutura energética e a Europa ainda tateando na escuridão da própria crise de racionamento autoinfligida.
Olha, quando um banco recomenda utilities, ele não está recomendando exposição a "geração de eletricidade" no sentido abstrato do dicionário. Está recomendando exposição a um setor onde a tarifa é fixada por comissão estadual, o custo de capital é subsidiado por incentivo fiscal federal, o mix energético é ditado por regra ambiental que muda conforme o vento político sopra, e a margem de lucro é praticamente garantida por lei desde que a empresa siga o roteiro do momento. Isso não é livre mercado. Isso é concessão de compadrio vestida com gravata de Wall Street, e o retorno anunciado ao investidor é, no fundo, uma fatia do imposto que o contribuinte americano já pagou sem saber que estava pagando.
O caso de energia é ainda mais delicioso de destrinchar. Metade das teses de investimento no setor hoje depende de crédito tributário verde, isenção para captura de carbono, subsídio para hidrogênio, garantia federal para linha de transmissão, ou algum outro brinde saído do último pacote legislativo aprovado em Washington. A outra metade depende da promessa implícita de que o governo, quando a coisa apertar, vai socorrer as empresas do setor porque energia é "estratégica". Traduzindo do economês para o vernáculo do quintal: o lucro é privado, o risco é do pagador de imposto, e o analista do banco chama isso de oportunidade generacional. Quer dizer, é oportunidade mesmo, só que a oportunidade é para quem entra na roda de amigos, não para quem paga a conta.
O que ninguém no relatório da Jefferies vai lembrar de mencionar é o que se deixa de fazer com o dinheiro que foi drenado para financiar essa festa. Cada dólar que o Tesouro americano bombeia em incentivo verde é um dólar que saiu do bolso de alguém, seja pela via direta do imposto, seja pela via silenciosa da inflação, seja pela via mais perversa ainda do endividamento que os netos vão herdar. Os empregos criados na siderúrgica subsidiada aparecem na foto do senador. Os empregos que não nasceram na pequena fábrica que foi tributada para pagar aquela conta, esses não aparecem em lugar nenhum, porque nunca existiram. E não existir não sai no jornal.
Há também a ilusão perigosa de que porque uma comissão de reguladores garantiu retorno mínimo à empresa de utility, o investimento seria "defensivo". Defensivo contra o quê, exatamente? Contra a inflação que o próprio banco central americano fabricou expandindo balanço por quinze anos seguidos? Contra o risco político de uma nova administração que pode rasgar em janeiro o incentivo assinado em outubro? Contra o custo de conformidade regulatória que dobra a cada ciclo eleitoral? A verdade é que o retorno "seguro" dessas ações é seguro apenas enquanto o arranjo político que o sustenta continuar de pé, e arranjo político é a coisa mais frágil que a história econômica conhece. Pergunte aos acionistas de qualquer estatal argentina o que "retorno regulado" significa quando o vento muda.
A lição que o pequeno investidor deveria tirar do relatório da Jefferies não é a lista de tickers, é a moldura. Quando o setor mais promissor da temporada é justamente aquele mais dependente de decreto, subsídio e cadeira reservada no gabinete do secretário, o que está sendo vendido não é retorno de capital produtivo, é aluguel de posição privilegiada no balcão do Estado. E aluguel de balcão, todo mundo que já morou perto de repartição pública sabe, é um bem que perde valor no minuto em que o funcionário do outro lado da mesa é trocado.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.