Duas horas e vinte e quatro minutos de quadra em Roma, e o resultado foi aquele que toda gente honesta já desconfiava: João Fonseca perdeu para Hamad Medjedovic por 3/6, 6/3 e 7/6 com parciais de 7/1 no tie-break, diante de um adversário que oscilava como bêbado em calçada molhada e mesmo assim levou para casa a vitória. Quem viu a partida sabe que o sérvio entregou o jogo de bandeja em diversos momentos, e o brasileiro, com a fome que se espera de um jovem em ascensão, não conseguiu sequer abocanhar o que estava servido. Fechar partida no profissionalismo é ofício de carpinteiro, não de poeta, e ali faltou martelo.
O que incomoda não é a derrota em si, porque tenista perde, faz parte do ofício, faz parte da curva. O que incomoda é a coreografia montada em torno do garoto desde o ano passado, a fanfarra que transforma cada bola dentro da quadra em prenúncio de era dourada, cada vitória em segundo turno de masters mil em capa de revista. Há uma indústria inteira interessada em vender o produto Fonseca antes que o produto Fonseca esteja maduro, e essa indústria tem nomes, tem patrocinadores, tem confederação, tem comentarista contratado, tem influenciador esportivo que nunca segurou raquete profissional na vida e que ganha visualização todo santo dia repetindo a mesma ladainha messiânica.
Siga a trilha do entusiasmo e você encontra quem fatura. Marca de material esportivo precisa de rosto novo no mercado latino. Federação precisa de pretexto para captar verba pública e privada. Imprensa esportiva precisa de novela com herói brasileiro porque novela com herói brasileiro vende anunciante. O torcedor, coitado, é o pagador final dessa conta emocional, embarcando em foguete que ainda está em fase de teste e levando consigo a expectativa que cobra juros compostos toda vez que o garoto entra em quadra contra um adversário fora do top cinquenta. Vitória vira obrigação, derrota vira escândalo, e ninguém pergunta se o piloto teve tempo de aprender a pousar.
A coisa em si, despida do figurino narrativo, é simples e antiga como o esporte profissional. Tenista de dezenove anos, talento evidente, físico em construção, repertório técnico ainda incompleto contra adversários de saibro europeu, perdeu uma partida que poderia ter ganhado contra um rival que jogou abaixo do próprio nível. Não é tragédia, não é traição, não é prenúncio de fim. É terça-feira no circuito profissional. Foi assim com todos os grandes que você já admirou e que hoje aparecem nas estatísticas de finais de Grand Slam. Cada um deles colecionou tropeços anônimos antes de virar lenda, só que naquele tempo a torcida sabia esperar e a imprensa sabia respirar.
O problema brasileiro com talento esportivo é o mesmo problema brasileiro com qualquer coisa que cresce naturalmente: a urgência em colher antes que a fruta amadureça, a obsessão de transformar em estatueta de gesso aquilo que ainda precisa apanhar bastante para virar mármore. Querem o garoto em capa hoje, querem o título amanhã, querem a estátua depois de amanhã, e quando o calendário insiste em obedecer ao próprio ritmo, fingem decepção como se tivessem sido enganados. Não foram enganados. Enganaram a si mesmos comprando narrativa que não estava à venda.
Que o rapaz perca, que perca em Roma, em Madri, em Paris, que perca quantas vezes for necessário para descobrir o que precisa corrigir no saque, no backhand de defesa, na cabeça quando o tie-break aperta. Tenista se faz no atrito, não no aplauso. E que o leitor, esse sim soberano de si mesmo, desligue a televisão sempre que o comentarista começar a cantar profecia messiânica antes do segundo set. A partida termina com placar, não com hino. O resto é fumaça vendida a quem ainda não aprendeu a perguntar quem está pagando o show e quem está embolsando o ingresso.
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.