Domingo, 31 de maio, Paris. Um garoto de dezenove anos, nascido no Rio de Janeiro, entra na quadra de saibro mais famosa do planeta para enfrentar o oitavo colocado do ranking mundial, finalista do próprio Roland Garros em duas ocasiões recentes. Sai de lá com vitória por 7-5, 7-6, 5-7 e 6-2. Não houve secretaria de tênis, não houve cota, não houve programa federal de incentivo à raquete, não houve comitê interministerial de revezes a Casper Ruud. Houve um brasileiro batendo na bola melhor do que um norueguês. Ponto final. O escândalo da coisa é justamente este: a coisa funcionou sem o Estado meter o nariz.
Convém lembrar quem é o derrotado. Ruud não é figurante de chave secundária; é jogador que chegou a duas finais de Grand Slam em Paris, especialista de saibro, máquina de regularidade. Pois bem, foi atropelado por um adolescente que ainda nem terminou de crescer dentro do circuito. E aqui mora a beleza meritocrática do tênis, esporte que, ao contrário das nossas distintas burocracias culturais, não permite que o derrotado apele para a Lei Rouanet do saque cruzado. Ou você devolve a bola, ou você perde. Não há narrativa, não há comissão de avaliação, não há painel de especialistas para dizer que, no fundo, quem perdeu ganhou simbolicamente. Perdeu, foi para o vestiário, fim de papo.
Sigamos a trilha do dinheiro, porque ela explica tudo. Quem paga a formação de João Fonseca? Família, patrocinadores privados, academia particular, federação que vive de patrocínio e de bilheteria. Quem paga a formação de medalhista olímpico médio em diversos outros esportes nacionais? Você, contribuinte, via Ministério do Esporte, Bolsa Atleta, isenções, lei de incentivo, repasses cruzados e aquela alquimia fiscal que ninguém entende e todo mundo finge fiscalizar. Os resultados, curiosamente, costumam ser inversamente proporcionais ao volume de dinheiro público envolvido. Quanto mais subsídio, menos resultado. Quanto menos Estado, mais raquete. A correlação é tão antiga quanto desconfortável para quem vive da máquina.
Repare na hipocrisia que já se anuncia. Daqui a algumas horas teremos políticos posando ao lado da bandeira, ministros postando fotos antigas em quadras de saibro fingindo intimidade com o esporte, parlamentares propondo homenagens em plenário, estatais querendo emprestar o sobrenome do menino para campanha institucional. A operação é sempre a mesma: o particular sua, o particular vence, o particular constrói; e quando a vitória chega, o aparelho público corre para fotografar junto, como parente distante que aparece no velório só pra dividir a herança. Vitória tem mil pais; derrota é órfã; e fracasso administrado por edital ninguém quer.
O caso Fonseca é uma lição silenciosa de filosofia política, dessas que não se ensinam em universidade pública porque atrapalhariam a folha de pagamento. A excelência humana brota do indivíduo que trabalha, que arrisca, que perde, que insiste, que recebe treino comprado por gente que confiou nele antes do resultado. Não brota de comissão tripartite, de fundo setorial, de plano nacional, de mesa de diálogo, de pacto pela cidadania esportiva. As coisas são o que são: a raquete bateu na bola, a bola entrou, o placar mudou. Toda a retórica solene que tentar emendar nesse fato concreto é parasita tentando se hospedar em vitória alheia.
Resta o óbvio que ninguém na imprensa subsidiada terá coragem de escrever. Se quisermos mais Fonsecas, a receita é a oposta da que se prega nos colóquios oficiais: menos imposto sobre quem treina, menos burocracia sobre quem patrocina, menos confederação inchada vivendo de repasse, menos ministério querendo carimbar talento. Liberdade, propriedade, mérito, contrato voluntário entre quem investe e quem joga. O resto é folclore para sustentar funcionário público em viagem internacional fingindo que acompanha delegação. O menino ganhou apesar do Brasil oficial, não por causa dele. E isso, convenhamos, é a melhor notícia esportiva e política do fim de semana.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.