O fato é simples e por isso mesmo constrangedor para quem vive de teorizar sobre comunicação de massa. O Jornal da Band, aquele noticioso que durante duas décadas foi tratado como o primo pobre que aparece na ceia de Natal por educação, está prestes a completar meio ano consecutivo batendo o SBT no horário das sete e vinte. Não é um deslize estatístico, não é uma semana atípica, não é o ibope de um dia de feriado prolongado. São seis meses. Cento e oitenta dias de telespectadores paulistas, deliberadamente, escolhendo ouvir notícia em vez de assistir ao que quer que o SBT esteja tentando vender ali entre a novela mexicana dublada e o jornalismo de palanque.
Convém entender o que está acontecendo, e não é o que dizem nos congressos de jornalismo. O telespectador médio da Grande São Paulo, esse animal pragmático que tem boleto vencendo e gasolina pra abastecer, não está fazendo curadoria estética da grade televisiva. Ele está votando com o controle remoto. E o voto dele diz que prefere a austeridade sóbria de um telejornal de classe média à algaravia eletrônica de uma emissora que confundiu jornalismo com programa de auditório. Quando o público escolhe a opção menos espetacular, é porque a opção espetacular o está insultando. Ponto.
Siga a trilha do dinheiro e a coisa fica saborosa. Cada ponto de audiência no horário nobre paulistano vale milhões em tabela comercial, e essa tabela é o que sustenta o império inteiro, das novelas de segunda classe aos talk shows de terceira. O SBT vinha cobrando do mercado publicitário um preço de vice-líder enquanto entregava performance de terceiro lugar, e o anunciante, esse sujeito que parece bobo mas tem planilha, finalmente percebeu o golpe. A queda na audiência não é causa, é sintoma. A causa foi a arrogância de uma emissora que achou que podia mexer no horário sagrado das dezenove e vinte como quem rearranja móveis na sala, sem entender que ali não é decoração, é liturgia.
Há uma lição histórica que ninguém aprende. Toda corte que confunde a sua própria importância com a importância do mundo termina derrubada pelo súdito mais humilde que decidiu, num belo dia, deixar de aplaudir. Roma caiu quando os bárbaros perceberam que ninguém mais defendia as muralhas. Os impérios televisivos brasileiros funcionam pela mesma lógica feudal: enquanto os senhores do feudo acreditarem que o vassalo é obrigado a assistir, há reino. No instante em que o vassalo descobre que existe controle remoto, a coroa rola pelo chão e ninguém se abaixa pra pegar.
O mais delicioso de tudo isso é o silêncio constrangido da imprensa especializada. Se fosse o contrário, se o SBT estivesse batendo a Band, teríamos uma semana de análises celebrando o gênio dos diretores de programação, a vitória do entretenimento sobre a chatice cívica, a derrota do jornalismo careta diante do dinamismo popular. Como o resultado contraria a narrativa, o resultado vira nota de rodapé. A coincidência entre os fatos que ganham manchete e a opinião dos donos da redação não é coincidência, é régua. Quem manda na manchete manda no que conta como notícia, e quem decide o que conta como notícia decide o que parece existir.
No fim das contas, a audiência funciona como o único mercado verdadeiramente livre que ainda sobra no Brasil. Não há subsídio que segure quem perdeu o público, não há decreto que obrigue ninguém a assistir, não há cota que salve programa ruim. O paulistano da Grande São Paulo, sozinho na sua sala, com a luz da televisão refletindo na parede, está exercendo a única forma de voto que ainda funciona sem urna fraudada. E o voto dele, nesses seis meses prestes a se completarem, é por uma emissora que, ironicamente, vinha sendo desprezada justamente por se recusar a participar do circo. Quem paga a conta da audiência perdida é o acionista do SBT. Quem recebe os louros do realismo televisivo é uma Band que talvez sequer tenha entendido o tamanho do milagre que caiu no seu colo.
Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.