O ex-ministro da Casa Civil, condenado e devidamente reciclado pelo sistema que ele mesmo ajudou a calibrar, está internado desde domingo no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, com diagnóstico de linfoma. A nota oficial é sóbria, contida, quase pudica. Repare na geografia do drama: não é um leito de enfermaria municipal em Diadema, não é a maca encostada no corredor de um pronto-socorro do interior paulista, não é a fila madrugadora por uma consulta de hematologia no SUS. É o Sírio. O mesmo hospital que virou ala VIP da nomenklatura petista nas últimas duas décadas, onde se interna o cardápio inteiro dos donos do poder, da cúpula condenada à cúpula em exercício. Quando a doença bate, o sistema único de saúde que essa turma jurou defender vira coisa para os outros.

Quem paga? Eis a pergunta que nenhum colunista de circuito vai fazer hoje, porque hoje é dia de comoção, e a comoção, como o senhor sabe, é o lubrificante predileto da impunidade. O homem foi condenado pela compra mensal de votos no Congresso, esquema que dilapidou cofres públicos, estatais e fundos partidários por um cálculo aritmético trivial: assalariar parlamentares saía mais barato que negociar com eles. Cumpriu pena reduzida, voltou ao tabuleiro, virou pré-candidato a deputado federal, e agora se trata num quarto que custa, por diária, mais que o salário mensal de quem limpa o quarto. A trajetória é uma escada lógica de cair o queixo: rouba-se o erário, sai-se mais cedo, retorna-se à urna, interna-se no andar nobre. Cada degrau pago por alguém, sempre o mesmo alguém, o sujeito anônimo do contracheque descontado na fonte.

A doença, claro, é trágica, e a doença não escolhe biografia. Ninguém aqui está torcendo contra o organismo de um senhor de quase oitenta anos. O que se torce contra é a coreografia. A coreografia é o ponto. Cada vez que um cacique do andar de cima adoece, a imprensa palaciana entra em modo capela ardente, e por trás da vela acesa passa silenciosamente o currículo criminal, repaginado como se fosse memória afetiva. Daqui a uma semana o sujeito é estadista. Daqui a quinze dias é vítima. Daqui a um mês é candidato com narrativa de superação. É o velho truque do enterro antes da hora: você sai do necrológio com aura, e aura, em política brasileira, vale voto.

Vale, sobretudo, observar a economia subterrânea do episódio. Quem financia uma pré-candidatura a deputado federal em São Paulo, no ano em que estamos, com tributação real beirando metade do PIB e fundo partidário inflado até a obscenidade? Quem banca a estrutura, os assessores, os deslocamentos, a comunicação, as pesquisas internas, e agora, possivelmente, o tratamento que se estenderá pela campanha? Não é o militante de praça. Nunca foi. O dinheiro do partido é dinheiro confiscado de quem trabalha, redistribuído por uma burocracia eleitoral que decide, em gabinetes climatizados, quanto cada coronel recebe da bolada compulsória. O eleitor médio sustenta a máquina que o ignora, alimenta o quadro que o despreza, custeia o hospital que jamais o atenderá. É a engenharia mais perfeita já inventada: chamam de democracia representativa, mas funciona como cartório feudal.

Roma tinha o pão e o circo, e tinha também o senador doente que retornava da vila campestre coberto de bandagens e simpatia popular, pronto para o próximo mandato. A república mudou de endereço, trocou a toga pelo terno escuro, mas o roteiro continua. O patrício adoece e a plebe se compadece. O patrício morre e a plebe chora. O patrício se cura, e a plebe descobre, anos depois, que pagou a internação inteira sem nunca ter tido direito a uma aspirina decente. Esse é o pacto não escrito da política tropical: você sofre em silêncio para que eles sofram em suítes.

Então deseje-se, com a urbanidade que a ocasião pede, recuperação ao paciente. Mas guarde-se, com a lucidez que a ocasião exige, a pergunta que jamais sai de moda. Quem paga a conta do Sírio? Quem paga a conta da pré-candidatura? Quem paga a conta da reciclagem moral de um condenado transformado em personagem de novela hospitalar? O senhor paga. Eu pago. Paga o sujeito que está agora mesmo numa fila de quimioterapia em hospital público, esperando uma vaga que talvez não chegue a tempo. O linfoma é democrático; o tratamento, jamais.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.