José Guimarães, deputado federal pelo PT do Ceará, pegou a caneta de Lula durante cerimônia oficial e a guardou para si, reproduzindo com precisão milimétrica o mesmo gesto que Jair Bolsonaro transformou em marca registrada. A cena seria cômica se não fosse tão instrutiva. Um parlamentar da esquerda, que passou quatro anos denunciando cada suspiro do governo anterior como ameaça à democracia, não hesitou um segundo em copiar o cacoete simbólico do adversário quando a caneta passou para o seu lado do balcão. A liturgia do poder, como se vê, não tem ideologia; tem donos rotativos.

O que deveria causar constrangimento virou motivo de riso cúmplice entre os presentes. E é aí que mora o diagnóstico. Ninguém na sala achou estranho porque, no fundo, todos sabem que o jogo é o mesmo. A caneta presidencial não é um instrumento de escrita; é um cetro. Quem a segura, mesmo que por empréstimo, participa do ritual de consagração do poder. É o equivalente moderno de tocar o manto do rei. O gesto de Guimarães não foi uma gafe, foi uma confissão involuntária: a disputa entre governo e oposição no Brasil não é sobre princípios, é sobre quem fica com os talheres.

A pergunta que ninguém faz, porque a imprensa prefere tratar o episódio como curiosidade de bastidor, é o que exatamente aquela caneta estava assinando. Termos, decretos, medidas provisórias, tudo isso tem destinatário. Cada assinatura presidencial redistribui recursos que foram extraídos à força do bolso de quem acordou cedo para trabalhar. A caneta não escreve poesia; ela autoriza transferências. E o sujeito que a guarda como troféu não está colecionando memórias, está sinalizando proximidade com a fonte do dinheiro alheio. Em qualquer outro contexto, guardar o instrumento usado para assinar a retirada compulsória do patrimônio de milhões de pessoas seria considerado, no mínimo, de mau gosto.

O mais revelador, porém, é a reação da própria base governista. Os mesmos que chamaram Bolsonaro de autoritário por distribuir canetas agora tratam o gesto de Guimarães como simpático, humano, até engraçado. A moral flexível é o combustível mais barato da política brasileira. Quando o adversário faz, é culto à personalidade, sintoma de fascismo tropical, perigo institucional. Quando o aliado repete o mesmo ato, quadro por quadro, é apenas um momento descontraído. Essa ginástica retórica exige uma elasticidade intelectual que só se adquire com anos de militância ou com a completa ausência de vergonha.

No fim, a caneta de Lula nas mãos de Guimarães é a metáfora perfeita do sistema político brasileiro. Mudam-se os nomes nas placas, trocam-se as cores nos palanques, reciclam-se os slogans a cada ciclo eleitoral, mas o mecanismo segue intacto: um grupo organizado se apodera do aparato estatal, distribui benesses entre os seus, e cobra a conta de quem não tem lobby, sindicato nem acesso ao gabinete. A caneta passa de mão em mão, mas nunca chega a quem paga a tinta. E é sempre muita tinta.

Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.