A notícia chegou embrulhada naquela prosa asséptica que a imprensa financeira usa para anestesiar o leitor: o JPMorgan Chase elevou sua participação na Pinewood Technologies, empresa britânica de software para concessionárias de automóveis, para 6,47%. Ponto. Como se fosse rotina, como se fosse contabilidade, como se movimentos de capital do maior banco americano do planeta tivessem a mesma relevância de um ajuste no estoque de padaria. Não têm. Nunca tiveram. Quando um gigante move o rabo, ondas atravessam continentes, e alguém, em algum lugar, está posicionado antes das ondas chegarem à praia.
Pinewood é uma empresa pequena, e essa é justamente a graça do arranjo. Software para concessionárias é o tipo de nicho aparentemente enfadonho onde as fortunas silenciosas se constroem, longe dos holofotes, longe das manchetes, longe do escrutínio. O setor automotivo está sendo demolido e recomposto ao mesmo tempo, com fabricantes tradicionais desesperados por sistemas que integrem venda de veículo, financiamento, seguro, pós-venda e o novo pesadelo dos dados do motorista. Quem controla o software que roda dentro da concessionária controla o pedágio invisível de cada transação. E o JPMorgan, que não é conhecido por comprar loteria, aumentou aposta.
Aqui entra a parte que os analistas de terno bem cortado jamais vão escrever. Instituições financeiras desse porte não são investidoras passivas no sentido em que a legislação finge que são. Elas emprestam dinheiro para os fabricantes de carro, financiam os estoques das concessionárias, securitizam os empréstimos dos consumidores, oferecem seguro sobre o financiamento, e agora compram pedaços do software que roda essa engrenagem toda. Chama-se, na literatura acadêmica, integração vertical. Nas ruas, chama-se cercar o rebanho. O mesmo banco fica em todos os lados da mesa, e o cliente final, aquele sujeito que só queria trocar de carro, paga a comissão de cada assento ocupado sem nunca saber que a mesa tem dono único.
Existe algo de profundamente cômico no fato de que a regulação europeia, tão pródiga em multar padeiro que vendeu pão com sal a mais, mal pisca quando o mesmo conglomerado que precisou ser salvo pelo contribuinte americano em 2008 volta a esticar tentáculos sobre infraestrutura crítica de um setor inteiro. É o velho arranjo: risco privatizado quando dá lucro, socializado quando dá prejuízo, e regulação suficiente apenas para eliminar o pequeno competidor que ousaria ameaçar o monopólio consentido. O regulador não protege o consumidor; protege o cartel de ser incomodado por gente nova.
O que não se vê nessa história é a montanha de decisões que deixam de ser tomadas por quem deveria tomá-las. O dono da concessionária vira operador de um sistema que não escolheu, dependente de um software cujo proprietário último é o mesmo credor que financia seu estoque. A liberdade de escolher fornecedor evapora quando o fornecedor é também o banco, o segurador e o dono da plataforma. Cada movimento como esse, pequeno demais para virar manchete, é mais um tijolo na parede que separa o empreendedor real da economia real. E quando a parede estiver pronta, dirão que o mercado escolheu assim, espontaneamente, por eficiência.
Quando o predador engorda em silêncio, é porque a caça ainda não percebeu que já foi cercada.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.