A cena tem algo de tragicômico, daquele cômico que só existe quando a vaidade humana encontra a burocracia partidária. Um magistrado teve que assinar uma decisão para confirmar o que a própria sigla já havia decidido em fórum interno: o ex-ministro está fora do Democracia Cristã. Não saiu, não pediu demissão, não negociou transferência cordial. Foi expulso. E, ainda assim, segue divulgando aos quatro ventos que é o pré-candidato presidencial da legenda que acabou de varrê-lo para fora pela porta dos fundos. É como o sujeito que recebe a carta de despejo, troca a fechadura, e ainda manda imprimir cartões de visita com o endereço antigo.

Convém olhar a coisa de longe para enxergar o desenho. Partido político no Brasil não é clube de ideias, nunca foi. É balcão. É CNPJ habilitado a sacar do Fundo Partidário e do Fundo Eleitoral, dinheiro carimbado como público mas que na prática vira mesada de cacique, salário de assessor, jingle de marqueteiro, jatinho fretado e jantar em restaurante caro. Toda briga interna que parece ideológica, quando você raspa o verniz, é briga por quem assina o cheque. A pergunta nunca é quem pensa o quê. A pergunta é quem manda no caixa.

O silogismo aqui se monta sozinho, sem precisar forçar a barra. Se partido é estrutura de captação de recursos do contribuinte, e se quem controla a executiva controla a estrutura, então expulsar um filiado é, antes de qualquer coisa, cortá-lo do dinheiro. O resto é fumaça. As justificativas oficiais, sempre redigidas naquele juridiquês solene que finge nobreza, servem apenas para dar verniz à operação. Por baixo do tapete, o que houve foi disputa de chave de cofre. E o expulso, percebendo que perdeu o cofre, agora tenta o último recurso disponível ao derrotado em rixa de comadre: fingir que a comadre não existe.

Há nisso uma lição antiga sobre o exílio. Quando Coriolano foi posto para fora de Roma, ele teve a dignidade brutal de virar as costas e dizer que era ele quem banía a cidade. Em terras tupiniquins, a dignidade virou farsa. O expulso não diz que bane o partido, diz que ainda é o candidato do partido. É a versão tropical do nobre destronado que continua mandando bilhetes ao mordomo exigindo o jantar das oito. Resta saber se o mordomo, agora a serviço de outro patrão, terá a paciência cristã de não rir alto.

O contribuinte, esse personagem invisível em toda crônica política brasileira, paga a conta dos dois lados. Paga o partido que expulsa, paga o juiz que oficializa, paga o tribunal eleitoral que vai julgar o recurso, paga o gabinete em que o expulso ainda redige notas oficiais em papel timbrado de uma legenda que o devolveu ao remetente. Paga também o noticiário oficial, paga a estrutura inteira que transforma vaidade ferida em notícia de capa. E recebe, em troca, o espetáculo. Pão não, mas circo em sessão contínua, ingresso compulsório, sem direito a reembolso.

No fim das contas, a história importa menos pelo personagem e mais pelo retrato. Mostra que a chamada democracia representativa, no formato em que vige por aqui, é menos uma arena de ideias e mais um condomínio de razoável má qualidade onde os síndicos brigam pela vaga de garagem enquanto o morador comum paga taxa extraordinária todo mês. O expulso recorrerá, certamente. Ganhará ou perderá, pouco importa. O que continua de pé, intocado, sólido como granito, é o arranjo: alguém sempre paga, alguém sempre recebe, e quase nunca é o mesmo alguém.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.