Prestem atenção na sequência dos fatos, porque ela é de uma comicidade involuntária que nenhum roteirista inventaria. Em 2010, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos aprovou a fusão entre a Live Nation e a Ticketmaster. Na época, os burocratas garantiram que haveria "salvaguardas" suficientes para preservar a concorrência. Dezesseis anos depois, um júri federal decidiu que a empresa resultante dessa fusão abençoada pelo governo é, pasme, um monopólio. Os mesmos estados que deixaram o casamento acontecer agora reclamam que o casal briga alto demais e cobra caro dos vizinhos. Só faltou o juiz pedir desculpas por ter celebrado a cerimônia.

Vamos seguir o dinheiro, porque ele nunca mente. A Live Nation controla venues, produz turnês, vende ingressos pela Ticketmaster e ainda opera o serviço de revenda. É dona do estádio, do time, do árbitro e da bilheteria. O consumidor americano, que paga taxas sobre taxas para assistir a um show, não tem para onde correr. Mas o problema não é que uma empresa ficou grande demais. Empresas ficam grandes quando servem bem ao cliente, e o cliente sempre pode ir embora. O problema é que a Live Nation ficou grande demais com a bênção expressa do aparato regulatório, que ergueu em torno dela uma muralha de licenças, contratos exclusivos com arenas públicas e regulamentações que tornam proibitivo qualquer concorrente novo entrar no mercado. O monopólio não nasceu do mercado livre. Nasceu de uma certidão assinada em Washington.

É sempre o mesmo roteiro. O governo cria a regulação que sufoca a concorrência. A empresa esperta aprende a navegar o labirinto burocrático melhor que as outras. Ela cresce, não porque é a melhor, mas porque é a que melhor se adapta ao ambiente artificial criado pelo regulador. Quando o monstro fica grande demais para ignorar, o mesmo governo que o criou se veste de cavaleiro e sai para matá-lo, cobrando do contribuinte o custo da espada. O processo contra a Live Nation não vai devolver um centavo a quem pagou 400 dólares para ver Taylor Swift de um assento que parecia ficar em outro estado. Vai, isso sim, empregar uma legião de advogados do governo, gerar manchetes convenientes para procuradores com ambições políticas e, no fim, resultar em algum acordo cosmético que muda o nome da taxa de serviço sem alterar o valor.

O que nenhum promotor público vai admitir é a verdade elementar que qualquer dono de boteco entende: se você proíbe todo mundo de abrir boteco na rua, o único que sobrar vai cobrar o preço que quiser pela cerveja. O mercado de eventos ao vivo nos Estados Unidos é um dos mais regulados que existem. Arenas são construídas com dinheiro público e operadas sob contratos de exclusividade que eliminam alternativas. Leis estaduais e municipais sobre licenciamento, segurança e revenda de ingressos funcionam como fossos medievais ao redor dos incumbentes. Cada nova regra, apresentada sempre em nome do "consumidor", adiciona um custo fixo que só os gigantes conseguem absorver. O pequeno promotor, o venue independente, o vendedor alternativo de ingressos, todos morrem sufocados não pela concorrência, mas pela papelada.

A lição se repete com a regularidade de um imposto: o Estado regula, o regulado captura o regulador, o consumidor paga, e quando a conta fica escandalosa demais, o Estado finge indignação e abre um processo que resolve menos do que uma simples revogação das barreiras que ele mesmo ergueu. Se os procuradores quisessem de verdade baratear o ingresso, bastaria eliminar os contratos de exclusividade entre arenas públicas e operadoras de ticketing, revogar as leis estaduais que criminalizam a revenda livre e parar de construir estádios com dinheiro do contribuinte para entregá-los a operadores privados em condições de monopólio. Mas isso significaria abrir mão de poder, e nenhum burocrata jamais abriu mão de poder voluntariamente. Então teremos o teatro judicial, a manchete indignada, o acordo morno, e daqui a cinco anos alguém vai pagar 500 dólares por um ingresso e se perguntar por que nada mudou. A resposta estará onde sempre esteve: quem criou o monopólio não foi o mercado. Foi quem regulou o mercado.

Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.