A notícia é curta e seca: a Justiça de São Paulo aceitou o pedido de interdição de Fernando Henrique Cardoso, formulado pelos próprios filhos, em razão do estágio avançado da doença de Alzheimer. O ex-presidente, aos 94 anos, já não é capaz de administrar seus atos da vida civil. E aqui começa a parte que nenhum editorial vai tocar, porque toca em algo que incomoda: o mesmo aparato estatal que FHC operou durante oito anos agora o trata como objeto de tutela. O sujeito que assinou medidas provisórias, que nomeou ministros do Supremo, que redesenhou a arquitetura monetária de um país continental, hoje precisa de um juiz de primeira instância para dizer se pode ou não movimentar sua própria conta bancária. A solenidade do poder é assim: te veste de imperador na ida e te despacha de pupilo na volta.
Não se trata aqui de falta de humanidade. Alzheimer é uma tragédia que não escolhe vítima, e qualquer família que passa por isso merece compaixão. Mas o caso FHC é pedagógico demais para ser tratado apenas como drama privado. Estamos diante do homem que, para o bem ou para o mal, mais concentrou poder executivo no Brasil desde o regime militar. O sujeito governou por medidas provisórias como quem despacha memorandos internos, reelegeu-se mudando a Constituição no meio do jogo e plantou no aparelho de Estado uma geração inteira de quadros que até hoje ocupa posições estratégicas. E agora esse mesmo Estado, com toda a sua liturgia processual, decide sobre a capacidade civil dele. A criatura julga o criador, e ninguém no tribunal percebe a ironia.
O que a interdição de um ex-presidente revela, para quem tem olhos de ver, é a natureza última do poder político: ele não pertence a quem o exerce. Nunca pertenceu. FHC não era dono do poder; era seu inquilino temporário. O verdadeiro proprietário é a máquina, o aparato, o sistema que sobrevive a todos os seus ocupantes e que, quando eles já não servem, os descarta com a mesma eficiência burocrática com que antes lhes obedecia. Os assessores sumiram, os aliados se reacomodaram, os intelectuais de plantão que o tratavam como farol da social-democracia brasileira agora escrevem artigos sobre outros assuntos. O poder não tem gratidão porque não tem memória, e isso não é defeito do sistema, é o sistema funcionando exatamente como foi desenhado.
Cabe perguntar, como sempre, quem paga e quem recebe nessa história. A interdição transfere a gestão patrimonial para os filhos ou para um curador nomeado. FHC acumulou, ao longo de décadas, não apenas o salário de professor da USP e de presidente da República, mas uma rede de fundações, institutos, consultorias internacionais e conexões que se monetizam de formas nem sempre visíveis ao contribuinte. O Instituto FHC, mantido por doações de grandes corporações e fundações estrangeiras, foi durante anos um centro de articulação política disfarçado de think tank. Quem administra isso agora? Sob quais regras? Com qual prestação de contas? A interdição judicial resolve o problema civil, mas abre uma porta que ninguém na imprensa parece interessado em cruzar.
A história é generosa com ironias para quem se dispõe a enxergá-las. FHC foi o presidente que mais falou em modernidade, em reforma do Estado, em racionalidade administrativa. Quis ser o príncipe esclarecido dos trópicos, o intelectual que provava que era possível governar com competência técnica. E talvez até fosse, em parte. Mas a lição que fica, agora que o Alzheimer apagou o brilho da retórica e restou apenas o corpo frágil diante de um juiz, é que nenhum homem é maior do que a máquina que ele alimentou. O Estado que FHC engordou com tributos, regulações e poderes extraordinários é o mesmo que agora decide, com carimbo e protocolo, que ele não pode mais decidir por si. Se isso não é justiça poética, é pelo menos a cobrança final de uma conta que todo estadista paga: você constrói o Leviatã, e um dia o Leviatã te engole. Sem rancor, sem cerimônia, sem sequer perceber que você um dia esteve no comando.
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.