A notícia é simples e, para quem tem olhos, carregada de uma ironia que nenhum roteirista ousaria inventar: Fernando Henrique Cardoso, o ex-presidente que durante décadas moldou, expandiu e legitimou o poder do Estado brasileiro, foi interditado pela Justiça de São Paulo. Os filhos pediram. O juiz concedeu. O Estado, que FHC tanto nutriu, agora decide oficialmente que ele não é mais capaz de gerir a própria vida. O criador, devorado pela criatura. Se alguém escrevesse isso como ficção, seria acusado de falta de sutileza.
Convém parar um instante e meditar sobre o que significa, em termos concretos, uma interdição judicial. Significa que um ser humano adulto perde, por decreto de um funcionário público investido de toga, o direito de administrar seus bens, assinar contratos, tomar decisões sobre seu próprio patrimônio e seu próprio corpo. O indivíduo se torna, para todos os efeitos legais, uma criança sob tutela. Agora, é perfeitamente compreensível que uma família recorra a esse instrumento quando um ente querido já não tem condições cognitivas de se proteger. Não é disso que se trata. O que interessa ao leitor atento é a natureza do poder que opera aqui: o mesmo aparelho burocrático que cobra impostos, que regula, que proíbe, que permite, que confisca, agora também decide quando você deixa de ser gente para virar objeto de curatela. E faz isso com a mesma naturalidade com que emite uma multa de trânsito.
Fernando Henrique construiu sua carreira inteira sobre a premissa de que o Estado é o grande organizador da vida nacional. Privatizou empresas, sim, e foi chamado de liberal por isso, mas qualquer análise honesta do período 1995 a 2002 revela que as privatizações foram, em larga medida, a transferência de monopólios estatais para oligopólios privados regulados pelo próprio Estado, com contratos blindados, agências reguladoras novas e um cipoal normativo que garantia que o dinheiro continuasse fluindo para os mesmos bolsos de sempre, apenas com intermediários diferentes. A ANATEL, a ANEEL, a ANP: não foram instrumentos de liberdade, foram instrumentos de controle com grife nova. Quem pagou? O contribuinte, como sempre. Quem recebeu? Os mesmos grupos que já circulavam pelos corredores de Brasília antes da Constituinte. A pergunta que importa nunca é "estatal ou privado?", mas sim: quem está cobrando o pedágio?
Há algo de profundamente revelador no fato de que o homem que ajudou a criar o Plano Real, alardeado como a grande conquista da estabilidade monetária brasileira, tenha passado os últimos anos de lucidez defendendo um Estado cada vez mais interventor, cada vez mais presente, cada vez mais disposto a decidir o que você pode dizer, onde pode investir e como deve pensar. O Real estabilizou a moeda, é verdade, mas ao custo de uma carga tributária que não parou de crescer, de um endividamento público que se tornou crônico e de uma dependência institucional que transformou o brasileiro em eterno refém da próxima canetada de Brasília. A inflação saiu do supermercado e entrou no imposto. Saiu do preço do feijão e entrou na conta de luz regulada, no combustível tabelado, no spread bancário protegido. Mudou-se o nome da doença, manteve-se o parasita.
E agora, no crepúsculo, o aparato que ele alimentou durante toda a vida retribui o favor declarando-o incapaz. Não há maldade nisso, evidentemente. Há apenas a lógica fria e inexorável do poder institucional: o Estado não tem gratidão, não tem memória afetiva, não tem lealdade. O Estado é uma máquina de processar pessoas e produzir papéis carimbados. Serviu enquanto foi útil; agora que não serve mais, vira um número de processo, uma certidão de interdição, um CPF sob curatela. Os filhos fizeram o que qualquer família faria. O juiz assinou o que qualquer juiz assinaria. E o sistema seguiu funcionando exatamente como foi desenhado: absorvendo indivíduos, digerindo-os e excretando documentos. Fernando Henrique Cardoso, que tanto acreditou na grandeza das instituições, agora experimenta, na própria pele, aquilo que milhões de brasileiros comuns experimentam todos os dias: a sensação de ser um objeto nas mãos de um poder que não pede licença, não pede desculpa e não olha para trás.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.