A Justiça Federal decidiu nesta quinta-feira manter encarcerado Marlon Brendon Coelho Couto da Silva, o MC Poze do Rodo, no presídio José Frederico Marques, em Benfica. O magistrado bateu o martelo logo após a audiência e devolveu o artista à cela com a solenidade de quem acredita estar salvando a civilização ocidental de um sujeito que rima sobre a favela onde nasceu. O recado foi dado, as manchetes foram alimentadas, e o aparato repressor saiu da cena com aquele ar de trabalho cumprido que, convenhamos, é a única coisa que esse tipo de gente sabe fingir com talento.
Convém olhar para o arranjo com a frieza de quem já viu esse filme passar mil vezes. O Estado, esse senhor feudal moderno que cobra dízimo sobre cada centavo que circula, descobriu mais uma vez que prender artista pobre dá ibope mais barato do que enfrentar a estrutura podre que ele próprio sustenta. Enquanto câmeras seguem o funkeiro algemado, ninguém pergunta quem assina os contratos das milícias, quem libera as licitações das UPPs que viraram ponto de pedágio, quem lucra com o orçamento bilionário da segurança pública que produz, ano após ano, exatamente o oposto do que promete. A trilha do dinheiro não passa pelos passinhos do baile, ela passa pelos gabinetes climatizados de quem decreta a guerra.
O silogismo aqui é constrangedor de tão simples. Se a lei vale para todos, então vale também para quem fardou a violência e a chamou de ordem. Se vale apenas para o cantor da quebrada que ousa cantar o que vê pela janela, então não é lei, é privilégio, é casta, é o velho costume colonial de mandar o capitão do mato resolver o problema da senzala enquanto a casa grande discute se Mozart ou Beethoven combina mais com o jantar. As coisas são o que são: prender funkeiro por apologia ao crime enquanto governadores prometem chacinas em rede nacional não é justiça, é pantomima.
O detalhe pitoresco da história, e aqui mora a graça, é que o mesmo aparelho que se escandaliza com letras de funk vive tranquilamente da inflação que rouba o salário do trabalhador, do imposto sobre o feijão, do confisco silencioso que corrói a poupança de quem nunca pisou numa boca de fumo. A retórica moral é o verniz que cobre a marcenaria torta. Todo regime que quer esconder o tamanho do próprio roubo precisa de um inimigo simbólico, fotogênico, fácil de vender no telejornal das oito. Ontem foi o cangaceiro, depois foi o comunista, depois o traficante genérico, agora é o MC. Muda o figurino, o roteiro é o mesmo desde que algum burocrata percebeu que medo dá voto e voto dá orçamento.
Quem paga essa conta? O contribuinte, sempre ele, o eterno otário que financia o presídio, financia o juiz, financia o promotor, financia o delegado, financia a viatura, financia a operação midiática e ainda é convidado a aplaudir de pé quando o circo termina. Quem recebe? A indústria carcerária que adora cama cheia, o político que ganhou mais um troféu para a parede, a imprensa palaciana que vendeu mais um dia de manchete histérica, e aquela classe burocrática que precisa, desesperadamente, que o povo continue olhando para o lado errado do balcão. Enquanto o funkeiro dorme no concreto frio de Benfica, o verdadeiro crime organizado almoça à custa do erário e brinda com vinho importado isento de imposto.
No fim, a pergunta volta com a teimosia das verdades incômodas. Quem paga e quem recebe? Paga o trabalhador que nunca ouviu uma música do rapaz, recebe o aparato que precisa de réus baratos para justificar a própria existência. O resto é decoração.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.