Existe um teste simples, quase primitivo, para verificar se uma instituição aplica suas regras com honestidade ou com conveniência: troque os personagens e veja se a lógica se sustenta. Um vereador do Partido dos Trabalhadores, sobrinho de uma ex-presidente que deixou o país com inflação nas alturas e uma CPI de herança, sobe ao microfone e fala em "cadeiradas". A Justiça, com toda a sua solenidade de mármore e latim, olha para aquilo e decide que é retórica, é figura de linguagem, é o calor normal do debate político. Nikolas Ferreira, deputado federal que incomoda a esquerda com a obstinação de um soluço, recorre ao mesmo judiciário que deveria ser imparcial e leva um não na cara. Agora inverta: imagine um vereador do PL falando em cadeiradas contra um petista. Alguém aqui acredita, honestamente, que o resultado seria idêntico? Quem apostaria nisso que levante a mão, porque eu tenho uma ponte para vender.

A decisão em si tem uma lógica que merece ser examinada com o bisturi, não com o enfeite. O argumento é que a fala não tinha "potencial de incitar crime determinado". Note a precisão cirúrgica da expressão: não qualquer crime, mas crime determinado. A cadeirada precisa ter endereço, CPF e horário marcado para ser considerada incitação. Abaixo disso, é só política, é só o teatro do plenário, é só a democracia vibrante em funcionamento. Pois bem. Se esse é o critério, ele precisa ser aplicado universalmente, sem hesitação e sem memória seletiva. Mas instituições que vivem de subjetividade adoram critérios universais da mesma forma que vampiros adoram luz solar: na teoria, aceitam o princípio; na prática, somem quando chega a hora de aplicá-lo ao outro lado.

Aqui é onde o dinheiro fala mais alto que a toga. O judiciário brasileiro não cai do céu. Seus membros são indicados, seus orçamentos são aprovados, seus privilégios são mantidos por um arranjo político que tem cor, tem partido e tem história. Não é conspiração, é mecânica básica: quem nomeia o juiz está plantando uma semente que vai crescer em direção à luz que convém. Não sempre, não em todo caso, não em toda comarca. Mas o padrão, observado ao longo de décadas, é suficientemente consistente para que a surpresa soe como ingenuidade performática. Quando o sobrinho de Dilma Rousseff recebe um tratamento diferente do que receberia um militante de direita na mesma situação, não estamos diante de uma coincidência. Estamos diante de uma instituição que, como qualquer outra criação humana em ambiente de poder concentrado, tende a proteger quem a protege.

Há uma ironia histórica que deveria constranger mais pessoas do que constrange. A esquerda brasileira passou anos construindo uma narrativa sobre discurso de ódio, sobre a violência das palavras, sobre o perigo das metáforas belicosas. Foi com esse vocabulário que processou, cancelou e tentou silenciar adversários por frases tiradas de contexto, por charges, por ironias mal compreendidas ou deliberadamente deturpadas. Agora, quando um dos seus fala em cadeiradas, a mesma esquerda descobre repentinamente a distinção fina entre retórica e incitação. O argumento muda conforme o interesse. A coerência é o luxo que o poder nunca precisou se dar ao trabalho de manter, porque quem controla a narrativa controla também o que conta como prova.

Nikolas Ferreira não é um personagem que inspire lágrimas fáceis. É um político habilidoso que sabe muito bem usar as instituições quando lhe convém, como qualquer outro. A questão não é chorar por ele. A questão é que a seletividade do judiciário corrói algo mais fundamental do que a reputação de um deputado: corrói a própria ideia de que as regras valem para todos. Quando a lei vira instrumento de conveniência, quando o critério para aplicá-la é o sobrenome do réu e a simpatia política do juiz, o que sobra não é justiça. É só poder vestido de toga. E poder vestido de toga é, no fundo, apenas poder com melhor guarda-roupa.

No Brasil, a cadeirada que a Justiça enxerga depende inteiramente de quem a balança. Isso não é uma anomalia do sistema. Isso é o sistema.

Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.