Gilberto Kassab declarou, com a desenvoltura de quem não pede licença para dizer o que todo profissional do ramo já sabe mas ninguém tem a indecência de pronunciar em público, que o eleitorado de Flávio Bolsonaro é mais volátil do que o de Lula. Sessenta por cento dos votos de Flávio estariam disponíveis para migração; apenas trinta por cento dos votos do petista moveriam uma palha. A observação é interessante não pelo que revela sobre Flávio ou sobre Lula, mas pelo que revela sobre quem a faz. Kassab é o homem que fundou um partido depois de passar pelo PSDB, pelo DEM e por siglas que nem a imprensa especializada consegue enumerar sem consultar arquivo. Ele é, por vocação e por constituição moral, o maior especialista vivo em volatilidade eleitoral. Conhece o assunto como o falsário conhece as marcas d'água.
A afirmação merece ser dissecada com cuidado porque ela esconde, sob a aparência de análise técnica, uma confissão política de primeira grandeza. Quando Kassab diz que o eleitor de Flávio é volátil, ele não está descrevendo uma fraqueza do candidato; está descrevendo o produto que pretende adquirir. É o açougueiro que avalia o boi antes de fazer a oferta. O eleitor conservador, nessa leitura, não é um cidadão com convicções a serem representadas. É uma massa disponível, desagregada, esperando alguém com estrutura partidária suficiente para canalizá-la em direção ao destino correto, que, por coincidência maravilhosa, é sempre o destino que o PSD já escolheu com antecedência. Caiado entra na equação não como expressão espontânea de um movimento político, mas como o contêiner mais adequado para o transporte da carga.
Há aqui um paradoxo que merece atenção. O eleitor de Lula, nessa análise, é descrito implicitamente como mais fiel, mais coeso, mais difícil de mover. Trinta por cento de volatilidade contra sessenta. E a pergunta que ninguém na grande imprensa teve a curiosidade de fazer a Kassab é a seguinte: por que o eleitor petista, que vive sob um governo que não entregou nada do que prometeu em termos econômicos e que conduz o país com a desenvoltura administrativa de uma república bananeira em câmera lenta, mantém seus votos mais firmemente do que o eleitor conservador? A resposta desconfortável, mas inevitável, é que o eleitor de Lula tem uma identidade política construída ao longo de décadas de organização sindical, movimentos sociais e aparato cultural sustentado com dinheiro público. O eleitor de direita, no Brasil, foi sempre tratado como peão de outras ambições. Nunca construíram nada para ele. Venceu eleições apesar do sistema, não por causa dele.
Segue-se a trilha do dinheiro e a paisagem fica mais clara. O PSD é uma máquina de ocupação de cargos. Tem prefeitos em mais de mil municípios, ministra pastas no governo Lula e ao mesmo tempo conversa com o campo conservador sem o menor constrangimento. Essa ubiquidade não é acidente nem talento político extraordinário. É o resultado natural de um partido que não tem ideologia porque não precisa ter: sua função não é representar, é intermediar. Kassab é o corretor de imóveis do poder brasileiro. Ele não mora nas casas que vende. Quando ele fala em "eleitor disponível", está falando em ativo sem dono, território sem bandeira, recurso que pode ser alocado de acordo com a conveniência da próxima temporada eleitoral. A linguagem é de mercado porque o negócio é de mercado. Apenas o produto é diferente: são pessoas.
Caiado, nesse contexto, tem a ingrata posição de ser simultaneamente uma aposta genuína e uma peça de xadrez. Pode ter convicções reais. Pode ser, de fato, o nome mais preparado que o campo conservador tem fora da órbita bolsonarista. Nada disso importa para a equação que Kassab está montando. O que importa é que ele movimenta a agulha das pesquisas na direção certa, que ele tem um perfil palatável para o eleitor de classe média que quer votar à direita sem o peso das controvérsias dos últimos anos, e que o PSD pode funcionar como seu guarda-costas institucional enquanto captura, no processo, toda a infraestrutura política que um candidato competitivo exige. O benefício é mútuo, os termos são claros para quem conhece o negócio, e o eleitor fica de fora da negociação, como sempre ficou.
A volatilidade que Kassab diagnostica no eleitor conservador não é uma falha de caráter do eleitorado. É a consequência previsível de décadas de traição sistêmica. Todo ciclo eleitoral, a direita brasileira assiste ao mesmo espetáculo: o candidato que prometeu cortar o Estado engorda o Estado, o que prometeu combater a corrupção distribui cargos com o mesmo critério dos predecessores, o que jurou pela propriedade privada recua diante de qualquer pressão organizada. O eleitor aprende, mesmo que lentamente, que não tem representação permanente, que tem apenas utilidade temporária. Então migra. Não porque seja frívolo, mas porque foi abandonado com tanta frequência que o abandono se tornou um reflexo de sobrevivência política. Kassab não descobriu a volatilidade do eleitor conservador. Ele descobriu o tamanho do estrago que o próprio sistema, do qual é parte central, causou nesse eleitorado ao longo de anos. E sua conclusão foi que dá para lucrar com isso.
Com informações da Conexão Política. A análise e opinião são do O Algoz.