A Kelso Group abriu tranche de varejo em sua oferta subsequente com abatimento de 5,7% em relação ao preço praticado com o institucional, e a imprensa financeira correu para chamar aquilo de gesto inclusivo. Quer dizer, o pequeno investidor foi convidado para a festa depois que o buffet já foi montado, os preços já foram negociados nas salas fechadas e os garçons da mesa institucional já decidiram o que sobra para os retardatários. O desconto não é bondade, é o preço de mercado do risco que o institucional não quis carregar sozinho, transferido para quem não tem departamento de análise, não tem acesso ao roadshow e não almoça com o CFO da companhia.

Toda oferta de ação com desconto ao varejo carrega uma pergunta silenciosa que ninguém no press release quer responder, que é por que raios o comprador profissional, com equipe, com modelo, com liquidez, aceitou pagar mais caro pela mesma ação que o dentista de Curitiba vai comprar por menos daqui a três dias. A resposta honesta é que o institucional pagou pelo direito de sair primeiro, pelo book building, pelo alocamento garantido em ofertas futuras, e o varejo pagou pelo direito de acreditar que ganhou algo. É um dos truques mais antigos do mercado de capitais, tão antigo que já era usado nas bolsas de Amsterdã do século dezessete, quando comerciantes holandeses despejavam papel de tulipa nos açougueiros e alfaiates da cidade depois que os grandes especuladores começavam a suspeitar da farra.

O interessante é notar como o vocabulário da operação foi cuidadosamente lavado para soar civilizatório. Não se diz oferta pulverizada, se diz democratização. Não se diz absorção de risco pelo elo mais fraco, se diz oportunidade de participar do crescimento da companhia. Não se diz desconto porque o mercado exige prêmio adicional para engolir o excesso de papel, se diz benefício exclusivo ao investidor pessoa física. É a linguagem quem faz o serviço pesado, e enquanto o varejista brasileiro decora o discurso sobre educação financeira e diversificação, o balcão institucional já reprecificou a posição e está estudando a próxima janela de saída.

Ninguém está dizendo que a Kelso é fraude ou que a operação é ilegal, porque não é nem uma coisa nem outra. O que se diz é bem mais simples e bem mais desconfortável, que o desconto de 5,7% não é presente, é sinal. Sinal de que a demanda no institucional não foi o que o banco coordenador vendeu para o mercado, sinal de que sobrou papel na mesa, sinal de que a estrutura de capital precisa ser resolvida rapidamente e o varejo é o comprador de última instância que sempre aparece quando o profissional já disse não. Cada vez que aparece uma oferta com desconto agressivo ao varejo, o histórico das que vieram antes deveria servir de manual, e o manual raramente termina com aplausos seis meses depois.

O varejista brasileiro é convidado a acreditar em duas coisas ao mesmo tempo, que o mercado é eficiente e precifica corretamente o valor das companhias, e que existe um desconto legítimo de 5,7% esperando por ele porque a companhia quer distribuir riqueza. As duas afirmações não podem ser verdadeiras simultaneamente, e a incoerência é a assinatura da operação. Se o mercado é eficiente, o desconto reflete risco adicional, e o risco adicional está sendo empurrado para quem menos tem condição de dimensioná-lo. Se o mercado não é eficiente, então toda a narrativa de acesso democrático desmorona porque significa que o preço institucional estava errado desde o início, e aí a pergunta muda de figura, mas continua incômoda.

Alocação de capital não é caridade e nenhuma companhia listada existe para fazer favor a acionista minoritário, o que é ótimo e como deve ser, porque é essa disciplina do interesse próprio que faz o sistema funcionar quando o Estado não intervém para distorcê-lo. O problema não é a Kelso oferecer papel com desconto ao varejo, o problema é a coreografia narrativa que transforma uma operação técnica em ato de virtude cívica. Comprou porque calculou o risco, tudo bem. Comprou porque acreditou no discurso da democratização, começou errado, e o mercado cobra caro por essa espécie específica de otimismo.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.