A Kiniksa Pharmaceuticals subiu ao palco da conferência de saúde do Wells Fargo com o cardápio de sempre: números crescentes do Arcalyst, o rilonacepte usado contra pericardite recorrente, e uma sopa de siglas prometendo o "pipeline aprofundado". A plateia de analistas fez a cara que sempre faz, aquela mistura de fé e planilha, porque é assim que se sustenta o culto ao ativo de biotech: você não vende o remédio, você vende a expectativa de que o remédio vai vender. E, no caso da Kiniksa, a expectativa é sustentada por uma única molécula que responde por praticamente todo o faturamento da companhia. Empresa de um produto só, apresentada como "plataforma de crescimento diversificada". A engenharia semântica do mercado financeiro merece um prêmio à parte.

O detalhe que ninguém no palco menciona, porque cortaria o clima da apresentação, é como o Arcalyst chega naquele preço de cinco a seis dígitos anuais por paciente. Não é a mão livre do mercado precificando raridade. É a mão pesadíssima da agência regulatória concedendo exclusividade de medicamento órfão, empurrando concorrentes para fora do balcão e permitindo que uma proteína de fusão que existe desde 2008 seja reprecificada como se fosse invenção da semana passada. O consumidor final, seja ele o paciente, o plano de saúde ou o contribuinte americano via Medicare, paga a conta. O laboratório embolsa o prêmio da escassez artificial. E o analista do banco chama isso de "modelo de negócios resiliente". Chama mesmo.

O que se vê é o crescimento trimestral bonito, a curva de receita subindo, o CEO sorrindo em slide. O que não se vê é a rede inteira de licenciamento cruzado, patentes esticadas, barreiras de entrada regulatórias e captura silenciosa da agência que faz aquele número existir. Se amanhã o FDA abrisse a porta para biossimilares do rilonacepte, o preço cairia oitenta por cento em dezoito meses, e o "pipeline promissor" viraria pedido de fusão apressada com alguma big pharma. É por isso que biotech de um produto só ama regulação. É por isso que gasta rios de dinheiro em lobby em Washington enquanto reclama do "ambiente regulatório complexo" em call de resultados. O ambiente complexo é a muralha do castelo, e eles moram dentro.

Vale lembrar como a coisa toda se sustenta, porque a memória do investidor brasileiro é curta demais para acompanhar. A Kiniksa foi montada em cima de um ativo desenvolvido originalmente pela Regeneron, licenciado, reembalado, relançado. É o modelo padrão da biotech pequena moderna: pegar uma molécula esquecida, achar uma indicação de nicho com poucos pacientes, conseguir designação órfã, cobrar preço de foguete e viver de royalties do sofrimento raro. Não é ciência, é arbitragem regulatória com jaleco branco. E a Wells Fargo faz o papel dela, que é vestir o arranjo com terno de casa de análise e vender a fatia para o fundo de pensão que precisa de exposição a "healthcare inovador".

Quando um analista escreve que a companhia "expande o pipeline de doenças autoimunes e cardiovasculares", o que ele está dizendo em português direto é que a Kiniksa procura desesperadamente uma segunda perna antes que a patente do Arcalyst comece a envelhecer e o mercado descubra que o rei estava vestido apenas com um decreto de exclusividade. Cada ativo novo na apresentação é uma tentativa de comprar tempo, uma promessa de que existe vida depois da vaca leiteira única. Talvez exista. Talvez não. O que existe com certeza é o incentivo perverso de um sistema em que ganhar dinheiro dependendo do burocrata que aprova sua molécula é mais lucrativo do que ganhar dinheiro competindo por preço e eficácia.

No fim das contas, a apresentação em Wells Fargo é um pequeno teatro dentro do teatro maior. O teatro maior é a indústria farmacêutica americana inteira, que aprendeu a monetizar a doença rara com a maestria que os reis mercantilistas do século dezessete monetizavam o monopólio das especiarias. Muda o produto, muda a corte, muda a linguagem, mas a lógica é a mesma desde que existe governo grande o suficiente para vender privilégio. E enquanto o paciente que precisa do remédio olha para o preço com o coração apertado, o executivo olha para o gráfico de vendas com o coração tranquilo. Um sistema em que a mesma doença é tragédia para quem sofre e oportunidade de valuation para quem trata não é um sistema de saúde. É um esquema de extração legalizado com bata branca.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.