A L3Harris subiu ao palco da Conferência Global de Industriais da Jefferies em 2026 para contar aos investidores como pretende crescer com disciplina, como se disciplina fosse algo que uma empreiteira do complexo militar-industrial pudesse reivindicar com cara limpa. O executivo fala em margens, em execução, em geração de caixa, em portfólio otimizado, e a plateia de gestores de fundo assente com aquele ar de quem entende que ali, naquela sala refrigerada, se está discutindo o único segmento do mercado americano onde o cliente nunca falha, nunca reclama do preço, nunca cancela o pedido e ainda por cima imprime a moeda com que paga. Chamar isso de crescimento disciplinado é um insulto à língua portuguesa e ao bom senso.

Olha, é preciso ter estômago forte para engolir a encenação. Quando uma empresa cuja receita depende em mais de setenta por cento de contratos com o governo dos Estados Unidos aparece falando em rigor de capital e alocação eficiente, ela está descrevendo, na verdade, a arte de administrar bem o rio de dinheiro que sai da Casa da Moeda, atravessa o Congresso via emendas de defesa e desagua no balanço trimestral. Não existe risco de mercado ali, existe risco político, que é coisa muito diferente. O acionista da L3Harris não aposta em produto, aposta em lobby. E o lobby, esse sim, tem sido executado com disciplina exemplar em Washington há décadas.

Quer dizer, siga o dinheiro e a fábula se desmonta. Cada radar de guerra eletrônica vendido, cada sistema de comunicação militar, cada satélite espião faturado, tudo isso é pago com imposto de americano comum e com dívida emitida pelo Tesouro que, no fim das contas, aparece como inflação no supermercado de Ohio. O contribuinte de Cleveland financia o dividendo do fundo de pensão de Boston que compra ação da L3Harris que vende sistema para o Pentágono que justifica novo orçamento de defesa que exige nova emissão de dívida que gera nova inflação que corrói novamente o salário do contribuinte de Cleveland. É um circuito fechado tão perfeito que dá vontade de aplaudir a engenharia, se não fosse a plateia forçada a pagar o ingresso.

E aqui aparece o que quase ninguém tem coragem de dizer em voz alta nas conferências de Manhattan. A tese de crescimento apresentada pela empresa depende inteiramente da continuidade da tensão geopolítica, da manutenção da guerra na Ucrânia, do escalonamento no Pacífico, do teatro do Oriente Médio, das novas frentes cibernéticas. Paz é péssimo negócio para quem vende míssil, e ninguém no setor tem incentivo econômico algum para desejar acordos duradouros. Quando o discurso corporativo fala em ambiente de segurança elevado e demanda estrutural sustentada, está dizendo em código que a expectativa é de mais sangue derramado em mais lugares por mais tempo. E os analistas dão nota de compra.

Me diz uma coisa, que disciplina é essa que se pratica com cartão de crédito alheio e limite ilimitado. Empresa disciplinada é aquela que corta custo porque o cliente pode ir para o concorrente, que inova porque a margem aperta, que demite gestor incompetente porque o mercado pune erro. Nada disso se aplica a uma fornecedora captiva do Departamento de Defesa, cujos contratos são renegociados no vermelho e ainda saem lucrativos, cujos atrasos viram aditivos, cujos erros de engenharia viram justificativa para novo programa. O que a L3Harris chama de disciplina é o luxo raríssimo de crescer sem ter que competir de verdade.

No fundo, a apresentação em Jefferies é o retrato mais fiel do capitalismo de compadrio do século vinte e um, aquele em que grandes corporações e Estado dançam abraçados sob o olhar exausto do pagador de impostos, que serve de música ao vivo e ainda leva a conta no fim da noite. A indústria de defesa americana virou um organismo simbiótico com o orçamento federal, incapaz de sobreviver fora dele e imune a qualquer disciplina de mercado real. Chamar isso de livre iniciativa é ofensa. É apenas o mais bem vestido dos programas sociais, com dividendos, opções de ações e almoço em Nova York.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.