Chega o outono, despenca a umidade, e a boca do brasileiro começa a sangrar nas beiradas como couro velho esquecido no sol. O fenômeno é banal, quase cômico, mas guarda uma daquelas ironias deliciosas que a vida econômica adora servir para quem tem olhos de ver. Repare bem: a mesma população que aceita filas hospitalares de seis meses, que engole reajuste de luz com sorriso amarelo, que aplaude ministro anunciando programa social financiado com o próprio salário descontado na fonte, essa mesma multidão entra numa farmácia qualquer e encontra trinta marcas de bálsamo labial competindo pelo seu bolso. Pasme: funciona. E funciona sem secretaria, sem decreto, sem comissão tripartite.
O lábio racha porque a pele dali é fina, quase translúcida, e não tem glândula sebácea que segure a umidade quando o ar fica seco. Vento gelado, calefação, mania de lamber a boca para aliviar o desconforto, tudo isso é gasolina no incêndio. Lamber, aliás, é o erro clássico, o equivalente fisiológico de tentar apagar fogo com palha. A saliva evapora rápido e leva embora a pouca hidratação que ainda restava, deixando a região mais seca do que estava antes. É a parábola perfeita do paliativo populista: a solução imediata que aprofunda o problema original, deixando o sujeito mais dependente da próxima dose.
O que cicatriza de verdade é coisa simples, conhecida há séculos, repetida em farmacopeias antes mesmo de existir farmácia. Manteiga de cacau, lanolina, cera de abelha, óleos vegetais densos, pantenol, ácido hialurônico em formulações modernas, vaselina pura quando o caso aperta. Nenhum desses ingredientes foi inventado por burocrata. Vieram do laboratório, da colmeia, do extrativismo, do trabalho paciente de quem tinha um problema concreto e foi atrás da solução concreta. A indústria cosmética, tão xingada nos jantares bem pensantes, resolve em silêncio um milhão de incômodos cotidianos que nenhum gabinete jamais resolveria, e ainda reduz preço ano após ano porque o vizinho do lado está fazendo a mesma coisa um centavo mais barato.
Note o contraste cruel. O cidadão sai de casa, paga imposto sobre o combustível, paga imposto sobre o transporte, paga imposto embutido no bálsamo que vai comprar, paga imposto sobre o cartão que usa para pagar o bálsamo, e ainda assim consegue o produto. Agora imagine se hidratação labial fosse considerada direito fundamental, com conselho nacional, distribuição gratuita, fila de cadastro e estoque controlado por algum primo de deputado. O brasileiro andaria de lábio sangrando até o juízo final, enquanto algum funcionário concursado explicaria em audiência pública que o desabastecimento se deve a fatores conjunturais e à herança maldita do governo anterior. A escassez não é acidente do planejamento central, é seu produto natural.
Há também o capítulo dos espertos, sempre presente onde há demanda. Fórmulas mirabolantes prometendo regeneração instantânea, ativos exóticos com nome de poção alquímica, embalagens que custam três vezes mais que o conteúdo. Faz parte. O mercado erra, vende bobagem, e o consumidor aprende a separar o joio do trigo lendo rótulo, comparando preço, testando na própria pele. Esse aprendizado descentralizado, essa inteligência distribuída de milhões de pequenas decisões, faz mais pela saúde pública do que qualquer cartilha oficial impressa em papel reciclado com verba de emenda parlamentar. O sujeito que se queimou comprando um produto ruim conta para três amigos, e três amigos contam para outros nove, e em seis meses a marca ruim desaparece da prateleira. Nenhuma agência reguladora opera com essa eficiência darwiniana.
Então, da próxima vez que o frio chegar e a boca pedir socorro, observe o gesto banal de entrar na farmácia e escolher entre dezenas de opções por menos do que custa um almoço. Você está participando, sem perceber, do mecanismo mais civilizatório já inventado pela humanidade, aquele em que estranhos cooperam para satisfazer necessidades alheias sem precisar de autoridade que os obrigue. Ninguém decretou que seu lábio precisava cicatrizar. Alguém, em algum lugar, percebeu que poderia ganhar a vida resolvendo isso para você, e o resto é história. Pena que essa lição, tão evidente no tubinho de dois reais, continue indecifrável para quem governa.
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.