Existe uma coisa que nenhum decreto, nenhuma reforma tributária e nenhum ministério da cultura conseguiu ainda eliminar do imaginário brasileiro: o cheiro de lasanha saindo do forno no domingo ao meio-dia. Pode parecer trivial dizer isso num jornal que normalmente rastreia o caminho do dinheiro público até o bolso do apadrinhado de plantão, e não deixa de ser, porque há algo profundamente político na persistência dessa tradição doméstica num país que sistematicamente destrói tudo que aproxima as pessoas das suas próprias famílias.
A cozinha caseira é, por definição, o oposto do Estado. Ela é privada, ela é voluntária, ela é gerida por quem arca com as consequências do resultado. Se a lasanha sai borrachuda, quem sofre é quem cozinhou, não um burocrata anônimo em Brasília. Esse mecanismo de responsabilidade direta, tão simples que qualquer criança compreende, é precisamente o que as instituições públicas destroem com método e eficiência invejáveis. O jantar da família não precisa de licitação, não tem desvio de verba, não gera CPI. Daí o desprezo velado das elites progressistas por tudo que cheira à vida doméstica e às tradições do homem comum.
Reinventar a lasanha clássica com molho branco em sete variações distintas é, num nível que poucos percebem, o exercício mais antigo da engenhosidade humana: pegar o que se tem, combinar com o que se conhece, e produzir algo melhor do que a soma das partes. Toda a lógica da prosperidade genuína está aí, condensada numa assadeira. Não é o planejamento central de nenhum órgão governamental que descobre que frango com espinafre fica bem com bechamel. É a cozinheira, na sua cozinha, no seu domingo, com o seu dinheiro, comprando os ingredientes que ela mesma selecionou na feira. A experiência acumulada de gerações passada de mãe para filha, sem regulamentação, sem certificação profissional obrigatória, sem Conselho Federal de Gastronomia cobrando anuidade.
E não é irrelevante que esse ritual aconteça no domingo, o dia que ainda conserva, mesmo numa cultura cada vez mais dessacralizada, o traço de uma interrupção deliberada do mundo produtivo. O domingo é o dia em que a família existe enquanto fim em si mesma, não como engrenagem de nenhuma máquina econômica ou social. Civilizações que destruíram esse ritmo, que transformaram o descanso em culpa e a mesa em pretexto para o celular, colheram exatamente o que plantaram: indivíduos fragmentados, solitários e disponíveis para qualquer oferta de pertencimento que o mercado político queira vender.
A lasanha ao molho branco, portanto, com toda a sua modéstia de prato de domingo, carrega um peso que vai além da nutrição. Ela é o argumento concreto contra a tese de que o homem moderno precisa de intermediários para viver bem. O forno não mente, a massa não adulterada não defrauda, e o molho feito em casa com manteiga, farinha e leite integral não tem nota de rodapé nem letra miúda. Numa época em que quase tudo que nos é entregue, do plano de saúde ao projeto de lei, vem carregado de cláusulas obscuras e taxas escondidas, há uma dignidade quase revolucionária em sentar com a família e comer algo que você mesmo fez.
Sete receitas, sete variações sobre o mesmo tema eterno: a abundância nasce da criatividade aplicada sobre recursos simples, não da redistribuição de recursos alheios. Quem entender isso na cozinha talvez, com o tempo, comece a entender nas urnas também.
Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.