O papa recém-eleito terminou as celebrações da Semana Santa, virou as costas para Roma e embarcou rumo à África. Quatro países em dez dias, agenda ministerial, cobertura planetária, discursos sobre solidariedade e esperança. A imprensa global cobriu com a solenidade reservada às grandes efemérides morais, e o leitor comum ficou com a sensação de ter testemunhado um gesto de generosidade sem precedentes. É exatamente aqui que o observador desatento para de pensar, e o observador atento começa.
O continente africano não foi escolhido por acaso como destino da primeira viagem apostólica. A África subsaariana concentra hoje a fatia de crescimento mais expressiva da Igreja Católica no mundo inteiro. Enquanto a Europa envelhece, descrença, e esvaziamento de seminários viram manchete recorrente, e enquanto a América Latina sangra fiéis para denominações evangélicas pentecostais, a África cresce. Cresce em batismos, cresce em vocações sacerdotais, cresce em dioceses novas. Numa instituição que existe há dois milênios e acumulou propriedades, influência política e redes de lealdade em todos os continentes, chamar esse movimento de puramente espiritual é uma gentileza que a realidade não merece.
Toda instituição que depende de adesão voluntária, mas opera com a escala e a estrutura de um Estado, precisa de base. Precisa de contribuintes. O dízimo não é metáfora, é fluxo de caixa. A rede de escolas confessionais, hospitais, obras assistenciais e missões que o Vaticano financia globalmente não se sustenta no ar rarefeito da fé pura: sustenta-se em doações, repasses governamentais, isenções fiscais negociadas país a país e acordos de cooperação com organismos internacionais. Quando a base europeia encolhe e a americana estagna, expandir a presença africana não é só estratégia pastoral, é gestão de portfólio. O papa viaja onde o crescimento está, da mesma forma que qualquer executivo visita o mercado emergente antes de visitar o mercado saturado.
Isso não invalida a fé de ninguém nem diminui o trabalho real que missões religiosas fazem em regiões onde o Estado é mais ausente do que de costume, o que já é dizer muito. O problema não é a Igreja ir à África, o problema é a narrativa que cobre esse movimento de uma camada de santidade tão espessa que a análise objetiva parece quase blasfema. Os próprios governos africanos que receberão o Pontífice sabem exatamente o que estão recebendo: legitimidade internacional, cobertura de imprensa positiva, uma fotografia ao lado do líder religioso mais fotografado do planeta. E o Vaticano recebe em troca acesso, presença, capilaridade. É uma troca. Não é uma esmola. Nenhuma das partes confundiu os termos do contrato, só o espectador foi mantido na ignorância edificante.
Há algo de sublime na capacidade humana de observar uma operação de expansão institucional e enxergar apenas benevolência. Roma aprendeu esse truque antes de Cristo nascer, quando os generais romanos chegavam a territórios novos carregando simultaneamente espadas e a promessa de civilização. A espada ficou para trás, a promessa evoluiu, o mecanismo é o mesmo: você chega com algo que as pessoas precisam, seja segurança, seja salvação, e a presença se naturaliza antes que alguém pergunte o preço. A pergunta que ninguém faz, portanto, é a única que vale: quem financia a estrutura que vai ficar quando o papa voltar para casa? Quem paga os padres, os colégios, os hospitais, as rádios comunitárias que transmitem missa todos os domingos? A resposta tem endereço, tem contabilidade e tem interesse. A santidade é real para quem crê. O negócio é real para quem paga.
Que o papa faça sua viagem, que os fiéis africanos recebam com alegria genuína o líder de sua fé, que a imprensa cubra com as fotos que sempre cobriu. Nada disso muda o fato de que por trás de qualquer movimento de uma instituição com dois mil anos de existência, propriedades em todos os continentes, um Estado soberano próprio e uma rede de influência que parlamentos inteiros invejariam, há um cálculo. Não é cinismo chamar as coisas pelo nome. É o mínimo de seriedade intelectual que qualquer observador deve a si mesmo. O incensário perfuma o ar. O balanço continua no cofre.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.