Péter Magyar ganhou as eleições húngaras e, em discurso a apoiadores em Budapeste, proclamou o fim de um ciclo. "Libertamos a Hungria", disse ele, com aquela convicção radiante que os políticos vitoriosos reservam para a noite da apuração, antes que a realidade do poder comece a apresentar suas cobranças. A palavra "libertação" é, de todas as palavras do vocabulário político, a que mais cadáveres acumula no currículo. Todo tirano que derruba outro tirano se proclama libertador. Todo aparato que substitui um aparato anterior chega carregando essa bandeira, que dura exatamente até o momento em que o novo ocupante do palácio descobre o gosto do orçamento público.
Há uma estrutura lógica elementar que a euforia eleitoral sempre trata de esconder. A pergunta não é quem ganhou, mas o que ganhou junto com ele. Magyar não dissolverá o Estado húngaro. Não abolirá o fisco, não liquidará os ministérios, não devolveu um único euro ao contribuinte que financiou décadas de burocracia. O que muda, na prática, é o grupo que opera as alavancas, não a existência das alavancas. Toda "mudança histórica" que deixa intacto o mecanismo central de coerção e tributação é, no fundo, uma troca de gerente, não uma reforma de sistema. O escravo que troca de senhor ainda é escravo, e a pompa da cerimônia não altera essa condição objetiva.
A imprensa ocidental, com seu entusiasmo previsível, já está preparando os fogos de artifício narrativos para Magyar. Orbán era o "iliberal", o "populista", o "inimigo da democracia liberal". Magyar, portanto, é o contrário disso, por definição e por contraste, sem que nenhuma análise mais demorada precise ser feita. É o mesmo mecanismo que funcionou em dezenas de eleições ao redor do mundo: o candidato aprovado pelas instituições europeias, pelos grandes veículos de comunicação e pelas fundações com endereço em Bruxelas é automaticamente o "democrata", enquanto o adversário é o "autoritário". A geometria política se resolve por decreto nominativo, não por exame de substância. Seguir o dinheiro, nesse caso, levaria a destinos pouco fotogênicos para a narrativa da libertação.
A Hungria de Orbán tinha problemas reais, contradições reais, excessos reais. Isso não está em disputa. O que está em disputa é a ideia de que a chegada de Magyar resolve qualquer uma dessas questões estruturais. Um país não se liberta elegendo um opositor. Liberta-se quando os cidadãos recuperam a capacidade de viver suas vidas sem pedir permissão ao Estado para cada decisão relevante. Liberta-se quando o peso tributário recua, quando a regulação deixa de sufocar a iniciativa individual, quando o governo governa menos e o cidadão decide mais. Nada disso está no cardápio de Magyar, e ninguém no noticiário de celebração teve o mínimo pudor de perguntar.
Existe uma ironia cruel na cena de um político de oposição proclamando "libertação" no momento exato em que conquista o controle do aparato estatal. É a liberdade que ele celebra sendo a sua própria, a do seu partido, a do seu grupo de interesse, não a do húngaro comum que vai continuar pagando impostos, obedecendo regulações e aguardando na fila de atendimento dos serviços que o governo lhe prometeu e nunca entregou. A história está repleta desses momentos. A Bastilha caiu em 1789, e a guilhotina entrou em operação em seguida com uma eficiência que o Ancien Régime nunca demonstrou. A libertação de um ciclo político costuma ser o prelúdio de outro ciclo igualmente necessitado de ser "libertado" mais à frente. O problema não é o homem no cargo. O problema é o cargo.
Com informações d'O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.