O líder do Hezbollah veio a público com a candura de quem não tem mais nada a perder, declarou que torce por um entendimento entre o Irã e os Estados Unidos que contemple a sorte do grupo libanês, e de quebra mandou recado às autoridades de Beirute para que larguem o canal de conversas com Israel. É um pedido de socorro travestido de declaração geopolítica. Quem domina o vocabulário dos cabos de aço sabe ler, a peça queixa-se de que o titereiro pode fechar negócio sem consultar o boneco. Pois é exatamente disso que se trata. O quarto ciclo de diálogos em Washington, marcado para o início de junho, acontecerá quer Beirute concorde, quer não, quer o Hezbollah engula, quer chore.
Convém olhar a planilha antes de olhar a bandeira. O Hezbollah não é um movimento popular libanês que um dia resolveu pegar em armas por conta própria, é uma franquia armada, financiada, treinada e abastecida pela República Islâmica do Irã há mais de quarenta anos. Sem os petrodólares de Teerã, sem os carregamentos via Síria, sem os mísseis fabricados em fábricas custeadas pelo contribuinte iraniano, sobra um partido confessional com discurso vibrante e arsenal vazio. Por isso a aflição do dirigente faz sentido contábil, se Teerã sentar com Washington para destravar sanções e oxigenar a economia, o preço da entrada no salão pode ser justamente o desarmamento da milícia que serviu por décadas como músculo terceirizado em terra alheia.
O Líbano, esse país que já foi a Suíça do Levante e hoje é a feira livre da hiperinflação, paga a conta dessa aventura há duas gerações. Sua moeda virou papel de embrulho, seus bancos confiscaram a poupança dos correntistas com a desfaçatez de quem chama roubo de controle de capitais, sua eletricidade racha em três horas por dia e seu porto literalmente explodiu por incompetência cumulativa. No meio dessa ruína, convive um Estado dentro do Estado, com exército próprio, telecomunicações próprias, sistema bancário paralelo, política externa autônoma e o monopólio prático da decisão sobre guerra e paz. Pergunte a si mesmo quem paga o salário do soldado regular libanês e quem paga o salário do miliciano, a resposta explica por que o segundo é mais bem armado.
A coreografia é antiga e sempre se repete. Quando o patrocinador estrangeiro precisa de moeda forte, ele pede ao satélite que faça barulho para encarecer a passagem do inimigo. Quando o patrocinador quer fechar negócio, ele manda o satélite ficar quieto e aceitar o pacote. O grupo libanês já foi útil para queimar pneus na fronteira sul, para abrir um corredor xiita até o Mediterrâneo, para chantagear europeus com refugiados e para servir de tropa de choque em Damasco quando o ditador local cambaleou. Agora, terminada a temporada de utilidade máxima e contabilizadas as perdas do último capítulo contra Israel, com pagers explodindo nos bolsos e comandantes liquidados em série, a peça percebeu que pode ser descartada na próxima rodada de pôquer entre os adultos da mesa. Daí a súplica pública, embrulhada em pose de estadista.
Há ainda a parte cômica do enredo, o conselho do dirigente para que Beirute abandone o canal direto com Israel. Convenhamos, quem dá ordens ao governo libanês sobre política externa não é o presidente, não é o primeiro ministro, não é o parlamento, é justamente quem está falando. O eufemismo aqui é tão grosseiro que escapa de qualquer pinça diplomática, equivale ao patrão recomendando ao empregado que não procure outro emprego enquanto ele decide se vai mantê-lo. A soberania libanesa é uma ficção jurídica de cartório, útil para emitir passaporte e cobrar imposto, inútil para qualquer coisa que envolva tanque, foguete ou mísseis de cruzeiro guardados em galpões na periferia de Beirute.
O leitor que acompanha esse teatro há tempo já sabe como termina. Negociações entre potências serão decididas por interesses de potências, e o destino dos peões será informado por comunicado oficial depois do almoço. Se Washington e Teerã acharem que conviver é mais lucrativo que se hostilizar, o grupo libanês receberá ordem de baixar o tom, guardar os mísseis no armário e fingir que sempre foi um partido político como qualquer outro. Se não acharem, a casa pega fogo de novo, com os mesmos libaneses comuns servindo de combustível, os mesmos jornais ocidentais comovendo a audiência com vídeos de crianças sob escombros e os mesmos dirigentes barbudos prometendo vitória final de algum bunker subterrâneo. A pergunta sobre quem paga e quem recebe segue valendo, paga o contribuinte iraniano com sua economia estrangulada, paga o cidadão libanês com sua moeda em pó, paga o civil israelense com sirenes na madrugada, e recebe quem mantém o monopólio do gatilho enquanto vende ao mundo a fábula de que está libertando alguém.
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.