Dez vezes. Não uma, não duas, não um deslize de quem estava nervoso num dia ruim. Dez episódios de descumprimento de medidas protetivas de urgência. É o currículo atualizado do deputado estadual Lucas Bove, que acaba de virar réu num segundo processo envolvendo a ex-mulher, Cíntia Chagas. O sujeito que senta numa cadeira da Assembleia Legislativa de São Paulo para votar leis que regulam o comportamento de milhões de paulistas não consegue, ele próprio, obedecer a uma ordem judicial elementar: fique longe. Não se aproxime. Não perturbe. Instruções que uma criança de seis anos entenderia, mas que parecem sofisticadas demais para quem carrega o título de legislador.
O caso seria grave o suficiente se envolvesse qualquer cidadão. Mas envolve um representante do Estado, alguém que participa diretamente da máquina que escreve, aprova e impõe regras de convivência a todos os demais. Há uma lógica perversa nisso que merece ser desmontada sem anestesia: o mesmo aparato estatal que persegue o comerciante que atrasa um alvará, que multa o motorista por um retrovisor, que enquadra o pequeno empresário em dezenas de obrigações kafkianas, esse mesmo aparato trata seu próprio integrante com uma leniência que beira a cumplicidade. Quando o sujeito comum descumpre uma medida protetiva, a polícia bate na porta. Quando é deputado, vira "processo em andamento". A toga é lenta para os seus e veloz para os nossos.
E aqui cabe a pergunta que deveria abrir todo noticiário sobre políticos encrencados: quem está pagando por isso? O salário de Bove continua pingando. Os benefícios continuam correndo. O gabinete continua funcionando. Os assessores continuam empregados. Enquanto o processo se arrasta pelo calendário judicial, o contribuinte paulista financia a carreira de um homem que, segundo a própria Justiça, não é capaz de respeitar a integridade de outra pessoa. É o velho arranjo: o político erra, e a conta vai para o pagador de impostos. O risco é socializado, o benefício é privado. Sempre foi assim, desde que o primeiro burocrata descobriu que podia viver às custas dos outros e chamar isso de "serviço público".
O que torna o episódio ainda mais revelador é a natureza da acusação. Não estamos falando de um crime de colarinho branco, daqueles que se escondem em planilhas e offshores. Estamos falando de algo que não admite sofisma: uma pessoa disse a outra "não chegue perto", a Justiça formalizou essa ordem, e o sujeito ignorou. Repetidamente. Se julgamos um homem pelo que ele faz e não pelo que diz, pelo padrão de conduta e não pelo discurso de palanque, então o padrão aqui é cristalino. Não é um erro, é um comportamento. Não é um acidente, é uma escolha reiterada. Dez vezes é política pessoal, não tropeço.
O mais instrutivo de tudo, porém, é observar a reação do sistema. Não espere indignação dos colegas de plenário. Não espere moções de repúdio. Não espere que a máquina política se volte contra um dos seus com a mesma ferocidade que reserva para quem questiona seus privilégios. O corporativismo parlamentar funciona como uma guilda medieval: protege os membros, pune os de fora. O eleitor, esse financiador compulsório de todo o circo, fica com o papel de sempre, assistir de longe enquanto seus representantes se blindam mutuamente. Bove continua deputado. Continua votando leis. Continua custando dinheiro. E o cidadão que paga a conta não tem sequer o direito de cancelar a assinatura.
Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.