O lucro da ByteDance despencou mais de setenta por cento em 2025, e a imprensa financeira noticia o episódio com a mesma reverência com que um sacristão anuncia a procissão de sexta santa. A narrativa oficial é comovente: a empresa está investindo pesado em inteligência artificial, logo, a hemorragia de caixa é, na verdade, virtude travestida de prejuízo. Traduzindo do chinês corporativo para o português do botequim: perdemos rios de dinheiro, mas confiem, é pelo futuro. É sempre pelo futuro. O futuro é aquele lugar onde ninguém nunca é cobrado.

Repare no truque semântico, porque ele é velho como as pirâmides e continua funcionando. Quando uma padaria perde setenta por cento do lucro, chama-se falência iminente. Quando uma estatal perde, chama-se missão social. Quando uma gigante de tecnologia perde, chama-se visão. O fato é exatamente o mesmo, a saber, menos dinheiro no cofre no fim do ano, mas a embalagem muda conforme o prestígio do enlatado. E o mercado, que deveria ser o mais frio dos juízes, compra a embalagem com entusiasmo adolescente, porque todo mundo tem medo de ser o único careta na festa do algoritmo.

Siga o dinheiro e a névoa se dissipa. Esses bilhões torrados em inteligência artificial não evaporam, eles migram. Vão para fabricantes de chips que vendem pá na corrida do ouro, vão para provedores de energia que alimentam data centers do tamanho de municípios, vão para uma casta de engenheiros cujos salários competem com os de jogador de futebol europeu, e vão, principalmente, para consolidar uma barreira de entrada tão alta que nenhum concorrente pequeno consegue mais escalar o muro. A grande piada dessa alegada revolução tecnológica é que ela está produzindo, na prática, os monopólios mais robustos que o capitalismo já viu, com a bênção entusiasmada dos mesmos governos que fingem temer concentração de poder.

Há aqui uma lógica de ferro que qualquer camponês medieval entenderia melhor que um analista de Wall Street. Se investir em IA produzisse retorno imediato, não precisaria de propaganda. O sol não precisa anunciar que amanhece. Quando a retórica do sacrifício necessário fica mais alta que os números do balanço, é porque os números, deixados a falar sozinhos, contariam outra história. A conclusão se impõe sem apelação: ou o retorno virá e justificará a sangria, ou o retorno não virá e alguém terá de explicar por que transformou uma máquina de imprimir dinheiro adolescente numa fornalha de queimar capital alheio.

E quem é esse alguém que banca a aposta? Não são os executivos, esses recebem bônus atrelados a métricas de adoção de IA, portanto ganham quando gastam. Não são os fundos estatais chineses, esses têm mandato político e não sofrem com trimestre ruim. Sobram os acionistas minoritários, os funcionários que tomam opção de ação como parte do salário, e, no fim da cadeia alimentar, os anunciantes que pagam mais caro pelo TikTok para custear a festa. Todo subsídio cruzado tem uma vítima discreta, e a vítima, como sempre, é quem não foi chamado para a reunião onde se decidiu o destino do seu dinheiro.

O epílogo provável dessa novela já foi escrito várias vezes, com elencos diferentes e cenários parecidos. Ferrovias na Inglaterra vitoriana, rádios nos anos vinte, ponto com nos anos noventa, cada ciclo tem sua promessa messiânica, sua queima ritual de capital, seus profetas enriquecidos antes do colapso e sua multidão de crentes arruinados depois. A inteligência artificial pode até entregar parte do que promete, e provavelmente entregará, mas a conta de setenta por cento de lucro evaporado num único exercício não será paga pelos visionários de palco, será paga por quem acreditou que desta vez, finalmente, seria diferente. Nunca é.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.