Três bilhões e quatrocentos milhões de reais. Esse é o lucro líquido ajustado que o Banco do Brasil conseguiu raspar no primeiro trimestre, depois de uma queda fenomenal de 54% em relação ao mesmo período do ano passado. Em qualquer empresa privada normal, isso significaria demissão da diretoria, queda de braço com acionistas e um plano emergencial. No banco estatal, significa uma coletiva de imprensa com gráficos coloridos, palavras como desafiador e conjuntural, e a promessa serena de que tudo vai melhorar no próximo trimestre. Sempre no próximo.
A explicação oficial, claro, é o agronegócio. A inadimplência do crédito rural explodiu, os calotes se multiplicaram, as renegociações viraram rotina, e o banco ficou com o mico na mão. Acontece que o crédito rural não cai do céu nem brota do mercado livre; ele é fabricado em laboratório legislativo, com taxas artificialmente baixas, prazos generosos e garantias frouxas, tudo costurado para favorecer um lobby específico que sabe muito bem onde fica a porta dos gabinetes em Brasília. Quando o produtor pagou, ficou com o lucro. Quando não pagou, o prejuízo socializa. É a velha alquimia republicana: privatizar o ganho, estatizar a perda.
Vale entender o silogismo na sua forma mais nua. Se o banco empresta com juros abaixo do custo real do dinheiro, alguém está bancando a diferença. Se o banco é controlado pelo Tesouro, esse alguém é o contribuinte. Logo, cada safra recorde celebrada em propaganda da CNA tem por baixo da terra uma rede de subsídios que sai do bolso de quem nunca pisou numa fazenda. O cara que vende picolé no semáforo está financiando a colheitadeira John Deere de alguém que ganha em dólar e estaciona caminhonete blindada na concessionária. Não é teoria; é a aritmética simples dos balanços.
O detalhe saboroso é a coreografia política. Há poucos meses, o governo desfilava com o banco como vitrine de gestão competente, prova de que estatal bem administrada dá certo, faz lucro, distribui dividendo. Bastou o vento virar para o roteiro mudar: agora a culpa é do clima, do preço da soja, dos juros lá fora, do produtor mal pagador, da China. De tudo, menos da política de crédito desenhada para comprar paz com bancada ruralista. É o método antigo das cortes decadentes: quando o tesouro esvazia, culpa-se a praga, a seca, o mau agouro, qualquer coisa que dispense o espelho.
Enquanto isso, a Caixa Econômica Federal coleciona problemas parecidos, e o BNDES anuncia novas linhas com pompa de redentor. O ciclo é sempre idêntico, e quem viveu o suficiente já viu o filme três ou quatro vezes: banco estatal empresta com critério político, balanço afunda, governo injeta capital, contribuinte paga, ninguém é responsabilizado, e na temporada seguinte tudo recomeça com nome novo. Chamam isso de política pública. No idioma honesto, chama-se confisco indireto com cerimonial.
A pergunta que ninguém quer ouvir em rede nacional permanece intacta. Quem paga essa conta de 54% de queda? O acionista minoritário que segurou a ação acreditando no marketing, o aposentado do fundo de pensão que vai ver o dividendo míngua, e principalmente o brasileiro comum que sustenta a engenharia inteira via tributo, inflação e juro alto. Quem recebe? O grande tomador do crédito subsidiado, o operador político que loteia diretoria, o consultor que vende discurso de sustentabilidade financeira, e o ministro que dorme tranquilo porque o problema, afinal, é sempre do próximo governo. O rei segue nu, e o desfile continua.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.