O presidente Lula veio a público dizer que a direita havia espalhado uma versão equivocada sobre a detenção de Alexandre Ramagem, que teria ocorrido não por causa de uma "multazinha" de trânsito, mas porque o ex-diretor da ABIN estaria condenado. Eis o fato nu: o chefe do Executivo federal, com toda a máquina de inteligência do Estado à disposição, acha natural comentar a situação jurídica de um adversário político como quem comenta o placar de um jogo. A frase escapou com aquela naturalidade que só a impunidade crônica permite. Não houve constrangimento, não houve cautela institucional, não houve sequer o verniz de imparcialidade que a liturgia do cargo exigiria. Foi uma declaração de caça, disfarçada de esclarecimento.
Observe a mecânica retórica. O presidente não disse "as autoridades competentes estão conduzindo o processo conforme a lei". Disse que a direita "propagou versão errada". Ou seja, o problema não é a perseguição a um opositor, o problema é a narrativa do opositor. O enquadramento é revelador: a questão deixa de ser jurídica e se torna comunicacional. Quem controla o enquadramento controla o veredicto popular, e o veredicto popular é a única jurisdição que realmente importa para quem governa. O tribunal que condena Ramagem é secundário; o tribunal que importa é o das manchetes. E o presidente sabe disso porque é ali, no terreno da opinião fabricada, que ele sempre jogou.
A distinção entre "multazinha de trânsito" e "condenação" é, para o cidadão comum, irrelevante enquanto exercício de poder. Nos dois casos, o aparato estatal intercepta um indivíduo e o submete à sua vontade. A diferença é de grau, não de natureza. Mas para o presidente, a diferença é crucial, porque a gravidade da acusação é proporcional ao prazer político que dela se extrai. Uma multa de trânsito é anedota; uma condenação é troféu. É por isso que fez questão de corrigir: não era para a cena parecer pequena demais. O Estado precisa que seus inimigos pareçam grandes o suficiente para justificar o tamanho da força empregada contra eles. Ditadores de república de bananas aprenderam isso antes de qualquer manual de ciência política: primeiro você infla o inimigo, depois você o esmaga, e o povo aplaude porque acredita que foi salvo de um monstro.
E aqui mora a pergunta que ninguém na imprensa palatina vai fazer: por que o presidente da República está tão bem informado, tão confortável e tão opinativo sobre o destino judicial de um ex-agente de inteligência que serviu ao governo anterior? A resposta é simples, e qualquer pessoa que já tenha observado o funcionamento de uma corte renascentista italiana sabe qual é. O soberano acompanha pessoalmente a caça aos desafetos. Não delega, não se distancia, não finge neutralidade. Ele quer saber, ele quer comentar, ele quer que todos saibam que ele sabe. A mensagem não é para Ramagem, é para todos os outros que ousem se opor: estamos olhando, sabemos onde você está, e quando você voltar, estaremos esperando. Isso tem um nome antigo e honesto, que a ciência política moderna tenta esconder atrás de eufemismos: intimidação.
O mais revelador, porém, não é a perseguição em si, que já virou rotina operacional deste governo, mas a sinceridade acidental da fala. Quando Lula disse que "achou que Ramagem voltaria por estar condenado", ele confessou, sem perceber, que considera a Justiça uma extensão do seu gabinete. Se o sujeito está condenado, ele volta, porque o sistema funciona a meu favor. Não há nessa frase nenhuma dúvida sobre a independência dos tribunais, nenhuma ressalva sobre o devido processo, nenhuma reverência pelo princípio de que a lei deve ser cega. A lei, no entendimento prático de quem fala do Planalto, não é cega. Ela enxerga muito bem. Ela enxerga quem é aliado e quem é adversário, e age de acordo. O contribuinte financia a magistratura, as polícias, os órgãos de inteligência, e todo esse aparato se converte, com a naturalidade de quem respira, em instrumento de manutenção do poder de quem ocupa a cadeira. Quem paga é você. Quem recebe, você já sabe.
Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.