O presidente do PT, Edinho Silva, declarou com a naturalidade de quem comenta o tempo que Lula aconselhou Alexandre de Moraes sobre o caso das milícias digitais, orientando-o sobre eventual afastamento do julgamento para não "macular" sua trajetória. Leia de novo, devagar. O chefe do Executivo, parte interessada em investigações que envolvem aliados e adversários políticos, telefonou ao ministro do Supremo Tribunal Federal para dar-lhe conselhos sobre como conduzir um caso judicialmente sensível. E o partido governista não só confirma como exibe a história com orgulho, como se fosse virtude. Em qualquer república que levasse a sério a própria Constituição, teríamos aí matéria para crise institucional. No Brasil de 2026, temos material para nota de rodapé.
A justificativa oferecida é deliciosa na sua ingenuidade calculada: Lula teria agido por "respeito" à trajetória de Moraes. Ora, desde quando o chefe de um Poder respeita o titular de outro Poder dando-lhe orientações sobre como exercer a função? Isso não é respeito, é tutela. É o tipo de gentileza que um padrinho oferece ao afilhado, não a deferência que um presidente deveria manter diante do Judiciário. A lógica é simples e não admite escape: se Lula aconselha Moraes sobre como agir num julgamento, então Lula influencia o julgamento. Se Lula influencia o julgamento, a independência judicial é ficção. Se a independência judicial é ficção, o que sobra da república? A conclusão é tão inevitável que precisaram disfarçá-la de gentileza.
O mais revelador não é o telefonema em si, mas a decisão de torná-lo público. Edinho Silva não tropeçou diante de um microfone; ele escolheu contar essa história. Isso significa que, na avaliação do PT, um presidente orientando um ministro do Supremo não é problema, é ativo político. Mostra proximidade, mostra poder, mostra que as engrenagens funcionam em sincronia. Para quem vive da política como administração de favores, a separação de poderes sempre foi um inconveniente retórico, algo que se recita em discurso de posse e se ignora na primeira ligação telefônica depois do café. O que estão dizendo, sem dizer, é que o arranjo institucional brasileiro opera como sempre operou: por relações pessoais, por confiança entre pares, por acordos que nenhuma ata registra.
Pergunte-se quem ganha com essa revelação. O PT ganha ao mostrar que seu líder tem trânsito direto com o Supremo. Moraes ganha ao ser apresentado como alguém importante o bastante para receber conselhos presidenciais. Lula ganha ao se posicionar como estadista generoso, acima das disputas mesquinhas. Todos ganham, menos o cidadão que, ingênuo, acreditava que o ministro que julga inquéritos envolvendo o ecossistema político do governo federal operava com independência soberana. A conta, como sempre, fica para quem paga impostos e confia nas instituições. Mas essa conta nunca aparece no comunicado oficial.
A história do poder no Brasil é a história de telefonemas que não deveriam existir. De bilhetes passados entre gabinetes que a Constituição separou com paredes de papel. De jantares onde o juiz senta ao lado do réu e ambos riem das mesmas piadas. Nada disso é novo. O que é novo, e deveria alarmar até o mais cínico dos observadores, é que já nem se dão ao trabalho de esconder. Quando o partido do presidente anuncia com orgulho que o presidente aconselhou o juiz, a mensagem é cristalina: a farsa da separação de poderes cansou de fingir. O palco foi desmontado, os atores tiraram as máscaras, e pedem aplausos pela sinceridade. Quem paga o ingresso somos nós. Quem recebe o cachê, você já sabe.
Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.