O presidente assinou na segunda-feira, em edição extra do Diário Oficial, um decreto que promete abater quarenta e quatro centavos do litro da gasolina pelos próximos sessenta dias. A manchete vende generosidade, a foto vende paternalismo, e o cidadão médio, ao encher o tanque, sente por um instante aquela gratidão difusa de quem foi agraciado pelo soberano. É exatamente esse o efeito desejado. Toda mágica de palco depende de uma cortina, e a cortina aqui é a aritmética: ninguém no telejornal vai abrir a planilha e mostrar de onde brotaram esses centavos prodigiosos.

Pois brotaram do seu bolso, evidentemente. Subsídio não é dinheiro caído do céu, é dinheiro tirado de alguém para ser entregue a outro alguém, com uma generosa comissão administrativa retida no caminho. O governo arrecada via tributo, devolve fingindo bondade, e ainda exige aplauso pela devolução parcial daquilo que confiscou inteiro. É o velho truque do ladrão que rouba o relógio, devolve o ponteiro dos minutos, e espera receber agradecimento pela cortesia. Funciona porque a vítima é distraída e o público é leniente.

Siga a trilha. O Tesouro renuncia receita ou compensa via Petrobras, a Petrobras absorve o impacto e o acionista, incluindo o pequeno investidor que botou seu décimo terceiro em ações estatais acreditando no discurso de companhia robusta, paga a conta na queda do dividendo. Distribuidoras e postos ganham margem extra de manobra durante a janela do subsídio, porque sempre ganham, e quando o prazo de dois meses expirar, o preço volta ao patamar de mercado acrescido da inflação acumulada no período, e o consumidor descobrirá que pagou caro pela festa breve. Toda esmola estatal tem boleto, e o boleto sempre vence depois da eleição mais próxima.

Há ainda o detalhe deliciosamente conveniente do prazo. Dois meses. Por que dois e não seis, não doze, não permanente? Porque dois meses é o tempo exato de um ciclo de manchetes favoráveis, de uma pesquisa de aprovação refeita, de um discurso de palanque com gráfico colorido mostrando que o combustível ficou mais barato sob a gestão do estadista. Findo o efeito anestésico, o preço sobe novamente, mas a memória política do brasileiro tem a duração de um carnaval, e quando a gasolina voltar a doer, a culpa será do mercado internacional, da geopolítica, do clima, de qualquer entidade abstrata suficientemente distante para não votar.

O argumento oficial sustenta que a medida protege o cidadão da disparada externa dos combustíveis. Pergunta singela: se o problema é externo, qual a competência de um decreto interno para resolvê-lo em definitivo? Nenhuma. O decreto não baixa o barril, não dissolve a OPEP, não conserta a logística de refino que o próprio Estado sucateou ao impedir investimento privado por décadas. O decreto apenas empurra o custo para outra coluna da planilha, e empurrar custo não é eliminá-lo, é fantasiá-lo. Causa e efeito não se curvam diante de canetada, por mais solene que seja a assinatura.

Quem paga, no fim, é sempre o mesmo sujeito: o trabalhador que enche o tanque, o pequeno empresário que recebe mercadoria por caminhão, o aposentado que vê a passagem do ônibus subir no mês seguinte porque a planilha de custos da empresa de transporte não acredita em decreto. Quem recebe é o palácio, em capital político, e a rede de intermediários que sempre orbita esse tipo de manobra. A pergunta que abre e fecha qualquer análise honesta dessa medida é a mais simples e a mais sonegada pelo noticiário: quem paga, e quem recebe? Responda essas duas, e o feitiço se desfaz antes do segundo tanque.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.