O presidente da República concedeu entrevista a três veículos que funcionam, na prática, como assessoria de imprensa voluntária, e no meio de uma conversa sobre a instalação de uma unidade do Instituto Tecnológico de Aeronáutica em Fortaleza soltou a frase que resume involuntariamente o seu método de governo: "Não é só cabeça grande, não, é inteligência." A correção de rota veio rápida, como quem tropeça no tapete e finge que estava dançando. Mas o tropeço é o de menos. O que interessa é o passo seguinte, o que ele pretendia com a dança toda.

Levar o ITA para Fortaleza não é decisão técnica. É decisão política com verniz técnico, que é a especialidade da casa. O ITA nasceu em São José dos Campos por razões precisas de logística, ecossistema industrial e proximidade com o complexo aeronáutico que virou a Embraer. Transplantar uma marca de prestígio para o Nordeste às vésperas de um ciclo eleitoral tem o mesmo cheiro de sempre: o cheiro de obra inaugural, de fita cortada, de palanque disfarçado de sala de aula. A pergunta que o jornalismo sério faria, mas que os três portais presentes não farão, é simples: quanto vai custar, de onde sai o dinheiro e quantos engenheiros aeronáuticos o mercado cearense absorve por ano? Se a resposta à última pergunta for "quase nenhum", então não estamos falando de educação. Estamos falando de patronagem com diploma.

O mecanismo é velho como a política brasileira e funciona assim: o governo federal anuncia uma benfeitoria com dinheiro que não é dele, é do pagador de impostos; a região beneficiada agradece nas urnas; a classe política local ganha um troféu para exibir; e a conta, diluída em orçamento federal, vira invisível para quem a paga. É a velha alquimia do Estado, que transforma confisco em generosidade e faz o saqueado agradecer ao saqueador. O sujeito de São Paulo, de Goiás ou do Rio Grande do Sul que acorda às cinco da manhã para trabalhar não sabe, mas parte do suor dele vai financiar a vaidade geopolítica de um presidente que quer ser lembrado como o homem que "levou o ITA para o Nordeste". O benefício é concentrado e visível; o custo é disperso e invisível. A mais antiga receita de popularidade com dinheiro alheio.

E há algo revelador na escolha dos interlocutores. Quando um presidente quer anunciar algo para o país, ele vai à imprensa ampla. Quando quer anunciar algo para a militância, vai aos veículos que funcionam como espelho. Naquele ambiente não há pergunta incômoda, não há "quanto custa", não há "por que lá e não em outro lugar com mais demanda real". Há só a liturgia do poder falando consigo mesmo e chamando isso de comunicação. O resultado é que a notícia sai pronta, embalada e com laço, sem que ninguém tenha tocado na ferida orçamentária. O jornalismo que deveria ser o cão de guarda do contribuinte vira o cão de colo do Planalto.

Quanto à frase sobre "cabeça grande", ela é apenas o aperitivo cômico de um prato que deveria provocar indigestão. Todo político, quando bajula um eleitorado, revela sem querer o que realmente pensa dele, porque a bajulação é sempre uma correção exagerada de um preconceito anterior. Mas o verdadeiro insulto ao cearense, ao paulista, ao brasileiro de qualquer latitude, não está numa piada infeliz sobre anatomia. Está em tomar o dinheiro dele sem pedir licença, gastá-lo conforme a conveniência eleitoral do momento e ainda esperar gratidão. Isso sim é tratar o cidadão como alguém de cabeça pequena.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.