O espetáculo foi digno de agência de turismo. O ocupante do Palácio do Planalto, em rompante de erudição súbita, resolveu parabenizar a Espanha por uma suposta queda de 30% em feminicídios e, para não deixar dúvida sobre a profundidade do raciocínio, arrematou com a pérola de que “a imprensa sabe o que foi”. Traduzindo do idioma palaciano para o português popular, o recado é: não me perguntem o que foi, inventem vocês a narrativa que me convém. Há poucas imagens mais patéticas do que a de um chefe de Estado citando estatística de terceiro país como se fosse conquista própria, ao mesmo tempo em que o país dele se mantém campeão continental na matéria que ele finge comemorar.
Siga o percurso do dinheiro e a mágica se desfaz. Cada vez que um governante sobe ao palanque para falar em “enfrentamento à violência contra a mulher”, o que se está anunciando é, na prática, a expansão de secretarias, a criação de conselhos, a contratação de consultorias, a abertura de editais, a multiplicação de cargos comissionados e o financiamento de organizações satélites que vivem de manter o problema exatamente onde está. A indústria do combate simbólico ao feminicídio é bilionária, e a métrica do sucesso nunca é a mulher viva; é o relatório entregue, o seminário realizado, a campanha publicitária veiculada em horário nobre. O cadáver continua na gaveta do IML, mas a verba fluiu, os cargos foram distribuídos, a foto oficial foi publicada. Missão cumprida, segundo quem recebe.
A lógica do discurso, se examinada com qualquer paciência, desaba como castelo de cartas ao vento. Se a queda espanhola existe e foi produzida por política pública específica, por que não se nomeia a política, não se descreve o mecanismo, não se explica o silogismo que levou da intervenção ao resultado? A resposta é simples: porque a menção vaga serve ao orador, e o detalhe serviria ao adversário. Governante que admira número alheio sem explicar a causa do número está apenas usando o estrangeiro como espelho favorecido, aquele que esconde a papada e alonga o pescoço. É o velho truque do sujeito que aponta para o jardim do vizinho quando o próprio quintal virou pasto. E a imprensa, essa figurante vocacional, faz o papel combinado de transcrever com cara séria o que merecia transcrição com risos.
Enquanto isso, no território onde ele efetivamente governa, o cenário é outro. O Brasil segue com taxas vergonhosas, medidas protetivas descumpridas rotineiramente, delegacias especializadas sucateadas, varas lotadas, polícia desmoralizada e um aparato judicial que, entre audiências de custódia e liminares criativas, consegue devolver agressor para o endereço da vítima antes mesmo de a tinta do boletim secar. Nada disso é acidente. É o desenho. Um Estado que monopoliza a segurança e terceiriza o resultado para a sorte da mulher é um Estado que cobrou pelo serviço, embolsou a nota e entregou o produto com defeito de fábrica. Mais: um Estado que, diante da morte consumada, transforma a tragédia em matéria prima de campanha eleitoral, corrida por subsídio e palestra remunerada.
O truque retórico de citar país estrangeiro merece ainda um segundo comentário. Há décadas se repete, em todos os governos, o mesmo ritual: copia-se o título da política bem sucedida lá fora, ignora-se o contexto institucional que a tornou viável, importa-se o nome e descarta-se a substância. A Espanha possui tribunais com competência específica, protocolos policiais integrados, pulseiras eletrônicas distribuídas em escala, sistemas de monitoramento funcionando em tempo real e uma cadeia de responsabilização que, se falha, ao menos existe. Aqui, o que se importou foi o slogan. E o slogan, coitado, não para bala, não impede facada, não ergue porta de delegacia que fecha às dezoito horas. Slogan alimenta ministério, não protege mulher.
No fim, a pergunta é a de sempre, e ela cabe em cinco palavras. Quem paga e quem recebe? Paga a contribuinte que sustenta, com imposto direto e indireto, todo o andar de cima da máquina simbólica que promete protegê-la e entrega relatório. Paga, sobretudo, aquela que não aparece na foto, a que virou número no boletim, a que foi enterrada na quarta enquanto na quinta se fazia o discurso sobre a Espanha. Recebem os de sempre: o ministro com pasta nova, o burocrata com cargo garantido, o publicitário com contrato renovado, o dirigente de entidade parceira com verba empenhada e, coroando o arranjo, o ocupante do Planalto, que sai do episódio com manchete gentil e a sensação reconfortante de que citou um número, fingiu indignação e não precisou prestar contas pelos que morreram sob a sua vigília. O rei está nu, e o manto alheio, por mais espanhol que seja, não cobre ninguém.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.