Existe um ritual muito antigo no interior do poder que nunca muda de formato, independente do século ou do regime: quando o escândalo fica grande demais para ser ignorado, você sacrifica o intermediário, declara vitória moral e segue em frente. Os romanos chamavam isso de imolação simbólica. Nós, com muito menos cerimônia, chamamos de demissão. Gilberto Waller foi nomeado presidente do INSS em 30 de abril de 2025 para substituir o anterior, que havia caído exatamente pela mesma razão que Waller cai agora: desvio de recursos de aposentadorias e pensões. Lula demitiu o bombeiro que chegou depois que a casa já estava pegando fogo, e agora vai contratar um terceiro bombeiro para fotografar as cinzas. O escândalo continua. A casa continua queimando. A diferença é que agora tem mais fumaça para encobrir quem ateou o fogo.

Vamos ao que interessa, porque o jornalismo de protocolo nunca vai lá: o INSS administra algo em torno de 850 bilhões de reais em benefícios pagos por ano, com uma máquina burocrática que emprega dezenas de milhares de pessoas e terceiriza serviços para centenas de entidades. Quando falam em "desvios de recursos de aposentadorias e pensões", estão falando de uma estrutura organizada de extração que não se monta da noite para o dia e não se desmonta com uma demissão presidencial. Quem desviou tem nome, CPF, conta corrente e, muito provavelmente, advogado providenciado com antecedência. O presidente do INSS não é o ladrão, é o endereço. Trocar o endereço não devolve o dinheiro roubado.

O raciocínio que o governo apresenta à imprensa é o seguinte: houve desvios, nomeamos um presidente para corrigir, ele não corrigiu, portanto demitimos. Parece lógico até você perceber o que está faltando. Falta o nome de quem desviou. Falta o dinheiro que sumiu. Falta a resposta para a pergunta fundamental que qualquer análise honesta exige: quem eram os beneficiários dos convênios fraudulentos, das associações de fachada, dos descontos indevidos em folha de pagamento de gente que nunca autorizou nada? Esses nomes não aparecem na nota de demissão. Não aparecem nas entrevistas coletivas. Não aparecem porque aparecer seria inconveniente para pessoas que ainda são úteis ao arranjo político vigente. A demissão de Waller é o ponto final numa frase que o governo não quer que você termine de ler.

Há uma crueldade específica neste tipo de escândalo que merece ser nomeada sem eufemismo. O dinheiro do INSS não é dinheiro abstrato, não é verba pública genérica, não é recurso do tesouro que veio do éter. É o dinheiro que o trabalhador teve descontado compulsoriamente da carteira durante décadas, com a promessa contratual de que receberia de volta na velhice ou na incapacidade. É o dinheiro da senhora de 70 anos que trabalhou como empregada doméstica por 30 anos sem registro e agora depende do benefício para pagar remédio. É o dinheiro do aposentado rural que nunca entendeu muito bem como funcionava a burocracia mas entregou a vida inteira ao sistema confiando que o sistema entregaria de volta. Quando esse dinheiro desvia, não é o Estado que sofre. É essa senhora. É esse trabalhador. O Estado apenas muda o presidente do instituto e segue funcionando. A senhora fica sem o remédio.

A engenharia política da situação é elegante na sua perversidade. Você cria um órgão obrigatório, proíbe a concorrência, cobra compulsoriamente de todos os trabalhadores, centraliza a gestão em Brasília, terceiriza a operação para entidades conveniadas escolhidas por critérios que nunca são plenamente auditados, e quando o esquema explode, a solução oferecida é mais do mesmo: mais controle centralizado, mais fiscalização estatal do Estado pelo próprio Estado, mais uma nomeação presidencial para um cargo que nunca deveria existir com este formato. É o barbeiro que cortou o dedo sendo tratado pelo mesmo barbeiro com a mesma tesoura. A premissa nunca é questionada. A premissa é o monopólio. O monopólio é intocável. Sobrará sempre um novo Waller para carregar a culpa e proteger a estrutura.

No fim, a pergunta que o governo não faz e a imprensa raramente faz fica aqui, registrada: quanto foi desviado, para onde foi, quem recebeu e quais desses nomes frequentam as mesmas festas, os mesmos comitês, as mesmas antessalas que os nomeadores? Enquanto essa pergunta não tiver resposta pública, datada e documentada, toda demissão presidencial no INSS é teatro. Bom teatro, com direito a nota de repúdio e ar de indignação, mas teatro. O telão fecha, os atores saem pelo fundo, e lá na plateia o aposentado continua com o mesmo saldo, o mesmo desconto, a mesma dívida que ele nunca fez. Quem pagou? Ele. Quem recebeu? Essa é a única pergunta que importa. E essa é exatamente a única que ninguém responde.

Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.