O presidente subiu ao palanque, abriu os braços e batizou de "civilizatória" a aprovação do fim da escala 6x1 na Câmara. A escolha do adjetivo é digna de antologia, porque sugere que bilhões de seres humanos que trabalharam, construíram catedrais, atravessaram oceanos, ergueram cidades e alimentaram filhos sob jornadas infinitamente mais duras pertenciam a alguma espécie de pré história bárbara, da qual finalmente nos resgata um plenário de deputados que não consegue sequer cumprir o próprio expediente sem auxílio paletó. Civilização, ao que parece, agora se mede pelo número de horas que o sujeito deixa de produzir. Aviso aos romanos, aos gregos e aos bandeirantes: vocês eram selvagens e não sabiam.

A pergunta que ninguém no palanque quis fazer é a mais óbvia de todas, e a mais incômoda. Quem paga essa conquista? Porque a hora trabalhada não é uma abstração lírica, é o custo concreto da padaria da esquina, do açougueiro do bairro, da costureira que mantém a oficina nos fundos. Quando o legislador, com um gesto de mágico de circo, decreta que a mesma operação deverá ser feita em menos tempo pelo mesmo preço, ele não cria horas livres do nada, ele simplesmente transfere riqueza de um bolso para outro e finge que ninguém percebeu. Ou o salário cai para acomodar a aritmética, ou o preço sobe para o consumidor, ou o pequeno empregador fecha as portas e o trabalhador celebra a conquista civilizatória na fila do seguro desemprego.

Convém notar a engenharia retórica do gesto. O presidente celebra "sobretudo as mulheres", como quem oferece um buquê eleitoral antes da próxima urna, porque é mais fácil falar em gênero do que em produtividade, mais fácil prometer descanso do que entregar crescimento. A mulher que trabalha no caixa do supermercado não foi consultada sobre se prefere ganhar menos por menos horas ou manter o contracheque atual. A decisão foi tomada em seu nome, com sua suposta gratidão presumida, por homens de gravata que jamais passaram quarenta e quatro horas semanais em pé atendendo cliente mal humorado. O paternalismo do século dezenove voltou trajado de progressismo, e ninguém parece estranhar.

O silogismo é singelo e cortante. Toda lei que reduz a oferta de trabalho sem aumentar a produtividade encarece o custo da mão de obra. Encarecimento de custo, em economia de mercado, é repassado ou demitido. Logo, o decreto civilizatório produzirá inflação setorial, desemprego nos elos mais frágeis e formalização ainda menor de quem hoje já sobrevive no limbo do aplicativo e do bico. Não é maldade do analista, é a mesma lógica que faz a pedra cair quando se solta a mão. Pode se votar contra a gravidade no plenário, a pedra continua caindo, e quem está embaixo, como sempre, é o brasileiro mais pobre, aquele que o discurso jura proteger e a prática esmaga.

Há ainda o aspecto mais saboroso, o da assimetria moral. Os mesmos parlamentares que decretam jornada reduzida para o trabalhador da iniciativa privada mantêm para si próprios recesso quadrimestral, auxílio paletó, cota de passagens, verba de gabinete e aposentadoria em condições que fariam corar um marajá otomano. A civilização, nessa toada, é sempre uma exigência feita ao outro. O patrão da padaria que se vire, o motorista de aplicativo que se ajuste, o pequeno comerciante que descubra como pagar a folha encolhida. O parlamento legisla sobre a vida alheia com a desenvoltura de quem nunca precisou assinar um cheque sem saber se vai compensar.

Resta o consolo da farsa explícita. Toda vez que um governante usa a palavra "conquista" para descrever uma lei que ele mesmo aprovou e que ele mesmo não cumprirá, o cidadão atento deveria proteger a carteira com as duas mãos. Conquista de quem, contra quem, paga por quem? Enquanto a resposta a essas três perguntinhas continuar engasgada no microfone, o que houve na Câmara não foi avanço civilizatório, foi apenas mais um capítulo da velha tragicomédia em que o pagador da conta é convocado a aplaudir o garçom que lhe trouxe a fatura. Que siga para o Senado, que sigam os discursos, que sigam as comemorações. A aritmética, paciente como sempre, aguarda do lado de fora.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.