O fato, nu e cru, é o seguinte: o presidente da República admitiu, sem qualquer constrangimento, que telefonou para um dirigente da Rede Globo para cobrar explicações sobre a exibição de um material jornalístico a respeito do Banco Master. Leia de novo. O chefe do Executivo federal, aquele que comanda a Receita, a Polícia Federal, o BNDES, o Fundo Garantidor de Crédito e todo o aparato regulatório que pode fazer um banco viver ou morrer, pega o telefone e liga para a emissora que acabou de veicular algo incômodo. E conta isso em público como se fosse uma anedota simpática de almoço de domingo. Em qualquer república que se leve a sério, isso teria nome: pressão institucional sobre a imprensa. Aqui, vira manchete de rodapé e segue o baile.

Mas o detalhe que transforma a cena de constrangedora em reveladora é o complemento. Lula não apenas cobrou a emissora pelo presente; fez questão de lembrar que não esqueceu o passado. O tratamento da mídia durante a Lava Jato, segundo ele, ficou gravado. Ora, traduzamos do dialeto palaciano para o português dos mortais: o presidente está dizendo, com todas as letras, que a cobertura jornalística é uma conta em aberto, um débito que ele pretende cobrar com os juros compostos do poder. Isso não é memória afetiva de quem sofreu injustiça; é a lógica do capo que anota no caderninho quem lhe fez desfeita e espera a hora certa de apresentar a fatura. A diferença entre o ressentimento de um cidadão comum e o ressentimento de quem controla o orçamento da publicidade estatal, as concessões de radiodifusão e a caneta das agências reguladoras é a diferença entre um latido e uma mordida.

E aqui entra a pergunta que vale ouro, ou melhor, vale os bilhões que circulam entre o Banco Master, o FGC e os fundos de pensão estatais: por que exatamente o presidente se incomodou tanto com um PowerPoint? Quando o poder reage com essa velocidade e essa intensidade a uma reportagem, o reflexo natural de qualquer pessoa que não tenha nascido ontem é desconfiar. Não da reportagem, do poder. Se o material fosse irrelevante, bastava ignorar. Se fosse falso, bastava processar. Mas ligar, cobrar, exibir o gesto em público como demonstração de força, isso é o que se faz quando a reportagem acertou onde dói. O dinheiro envolvido na operação Master, os depósitos garantidos por um fundo que, no fim das contas, é bancado pelo sistema financeiro inteiro e, em última instância, pelo contribuinte, a proximidade de figuras políticas com o banco, tudo isso é território que o jornalismo deveria investigar com lupa e lanterna. E o presidente quer que apaguem a lanterna.

O mais grotesco, porém, é a inversão moral que se opera diante dos nossos olhos. Lula se apresenta como vítima da mídia. O homem que governa a oitava economia do planeta, que distribui cargos, verbas, emendas e benesses, que pode com uma canetada redirecionar bilhões em publicidade oficial, esse homem é a vítima. E a emissora de televisão, que depende de concessão pública renovável pelo governo, é a poderosa. É como se o dono do matadouro reclamasse que o boi mugiu alto demais. A Globo, convenhamos, não é nenhuma donzela indefesa. É uma corporação gigantesca que joga seu próprio jogo de poder. Mas a assimetria entre quem empunha a caneta do Estado e quem opera sob concessão dessa mesma caneta é tão óbvia que fingir não vê-la exige um esforço deliberado de cegueira. Quando o concedente liga para o concessionário para reclamar do conteúdo, não existe conversa entre iguais. Existe um lembrete velado de quem manda.

O padrão, aliás, é velho como a política brasileira e, se formos honestos, velho como qualquer governo em qualquer lugar do mundo. O poder sempre quis domesticar quem o fiscaliza. Às vezes usa a censura explícita, às vezes o suborno via publicidade estatal, às vezes o telefone amigável que carrega o peso implícito de mil consequências. O método muda, a lógica permanece: informação que incomoda o soberano precisa ser contida. E a pergunta final, aquela com a qual começamos e com a qual terminamos, é sempre a mesma. Quem paga pelo silêncio da imprensa? Você, contribuinte, que financia a máquina que faz o telefone tocar. E quem recebe? Quem sempre recebeu: os que precisam que certas perguntas nunca sejam feitas sobre certos bancos, certos fundos e certos fluxos de dinheiro que correm nas tubulações subterrâneas entre o mercado financeiro e o Planalto.

Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.