Luiz Inácio Lula da Silva sentou-se diante dos microfones do Brasil 247, da Revista Fórum e do DCM, aquele triunvirato de chapa-branca que faz as vezes de imprensa independente com o mesmo entusiasmo com que o cachorro abana o rabo para quem lhe enche a tigela, e declarou, com a solenidade de quem anuncia uma conquista civilizatória, que Alexandre Ramagem foi preso nos Estados Unidos por ser um "golpista condenado". A frase veio redonda, ensaiada, pronta para virar manchete. E virou. O que ninguém perguntou, porque naquele ambiente ninguém pergunta nada que não esteja no roteiro, é algo elementar: desde quando o chefe do Executivo de uma república democrática sai comemorando publicamente a prisão de um adversário político como se fosse gol em final de campeonato? A resposta, claro, é que faz isso desde sempre, em toda república onde o verniz democrático serve apenas para encobrir o exercício cru do poder.
Observe-se a mecânica da coisa. Ramagem, ex-chefe da ABIN e ex-deputado pelo PL, é figura marcada desde que o vento político mudou de direção. Sua condenação, seus processos, sua fuga ou viagem aos Estados Unidos, tudo isso compõe um enredo que o governo atual maneja com a precisão de quem sabe que precisa de vilões para justificar a própria existência. Todo regime que se sustenta pela narrativa de que "salvou a democracia" precisa, estruturalmente, de golpistas permanentes. Sem o inimigo, o herói perde o emprego. E Lula sabe disso com a mesma clareza instintiva com que o jogador de sinuca calcula três bolas à frente. Ramagem preso não é justiça; é peça de propaganda. É o troféu que se exibe na parede da sala para lembrar as visitas de quem manda nesta casa.
Agora sigamos o dinheiro, que é onde a coisa sempre fica interessante. Os três veículos que receberam a entrevista exclusiva, Brasil 247, Fórum e DCM, são notórios beneficiários de verbas públicas de publicidade, contratos governamentais e toda sorte de irrigação estatal que transforma jornalismo em serviço de relações públicas. O presidente não foi dar entrevista; foi remunerar aliados com o bem mais valioso da política moderna: exposição. Ele fala, eles amplificam, o contribuinte paga a conta e o ciclo se fecha com a elegância de um esquema que nem precisa mais se esconder. Pergunte-se: se Lula quisesse apenas informar o público, por que não foi à TV aberta, ao jornal de maior circulação, a qualquer veículo que pudesse confrontá-lo com uma pergunta incômoda? Porque a função daquela entrevista não era informar. Era confirmar.
Há algo de profundamente revelador no fato de que um presidente celebre uma prisão em território estrangeiro. Quando o aparato estatal de um país consegue que outro país prenda seu opositor, isso não é prova de força institucional; é prova de que a máquina de perseguição ultrapassou as fronteiras. Os mesmos que passaram décadas denunciando o imperialismo americano agora batem palmas quando o sistema judiciário dos Estados Unidos serve de braço auxiliar da Polícia Federal brasileira. A contradição não os incomoda porque nunca foram contra o imperialismo; eram contra o imperialismo que não os beneficiava. O poder estrangeiro que prende seus inimigos é poder legítimo; o que contraria seus planos é opressão. Essa ginástica moral tem nome antigo: é a lógica do tirano que se veste de democrata, aquele que usa as instituições como porrete e chama o porrete de "Estado de Direito".
O que deveria alarmar qualquer cidadão com um mínimo de senso crítico não é se Ramagem é culpado ou inocente dos crimes que lhe imputam. É a naturalidade com que o chefe de Estado transforma o sistema penal em espetáculo político e a prisão de um homem em palanque eleitoral. Hoje é Ramagem. Amanhã é qualquer um que atrapalhe o projeto de poder. A história está cheia de governos que começaram prendendo "golpistas" e terminaram prendendo qualquer um que discordasse em voz alta. O padrão é tão repetitivo que já deveria fazer parte do currículo escolar, se a escola servisse para ensinar a pensar e não para produzir eleitores dóceis. Quando o presidente ri da prisão de um adversário na frente de jornalistas que ele mesmo financia, o que você está vendo não é democracia funcionando. É o poder mostrando os dentes e pedindo aplausos.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.