A cena é quase litúrgica na sua precisão cênica. Fim de agenda internacional, Barcelona iluminada, as agulhas barrocas da basílica inacabada furando o céu catalão, e o presidente da República ajoelhado no genuflexório, mãos postas, olhos semicerrados, câmera estrategicamente posicionada para captar o ângulo devocional. A primeira dama ao lado, o vídeo editado, a postagem cronometrada. Deus, aparentemente, agora tem assessoria de imprensa e aprova o roteiro antes da publicação.
Antes de discutir a sinceridade da oração, que é assunto entre o homem e aquilo em que ele diz crer, convém fazer a pergunta que nenhum repórter de Brasília faz: quem pagou a passagem, a comitiva, a hospedagem, a segurança, o combustível do avião presidencial que cruzou o Atlântico para terminar numa selfie devota diante de Gaudí? O contribuinte brasileiro, aquele mesmo que não consegue pagar o plano de saúde, que vê o quilo do café beirar os sessenta reais, que trabalha até maio só para sustentar a máquina que agora lhe devolve, como suvenir, um vídeo de piedade turística.
A coisa é o que ela é, não o que a narrativa tenta fazer parecer. Um homem que passou décadas construindo carreira política sobre o anticlericalismo difuso da esquerda continental, que tratou a fé alheia como folclore atrasado quando era conveniente, subitamente se descobre peregrino quando o eleitorado evangélico some das pesquisas e o eleitorado católico conservador começa a torcer o nariz. Ajoelhar em igreja estrangeira é barato; devolver dízimo cobrado em forma de imposto seria caro. Escolheu o primeiro, como era de se esperar.
Há uma sabedoria antiga que diz para julgar a árvore pelos frutos, não pelas folhas. As folhas são o vídeo, o genuflexório, o terço que aparece na mão conforme o calendário eleitoral. Os frutos são a carga tributária recorde, a inflação que corrói o salário do pedreiro que de fato põe tijolo sobre tijolo, o endividamento público que compromete o pão dos netos de quem hoje aplaude o gesto piedoso em Barcelona. Entre o que se mostra e o que se faz, escolha sempre o que se faz. É a única métrica honesta.
Reis medievais também gostavam de peregrinar. Financiavam catedrais com o ouro extraído dos servos e depois desfilavam diante delas como se fossem os construtores, quando o máximo que haviam feito era assinar a ordem de confisco. Gaudí, ironicamente, recusava pagamento de ricos quando suspeitava da procedência do dinheiro, e morreu pobre, atropelado por um bonde, vestido de mendigo. A basílica dele foi erguida com doações voluntárias de gente anônima, pedra por pedra, durante mais de um século. Há uma lição ali, silenciosa, nas torres inacabadas, sobre a diferença entre o que se constrói com oferta livre e o que se constrói com violência fiscal. Pena que o visitante ilustre não tenha parado para ouvir.
Portanto, voltemos à pergunta inicial, porque ela é a única que importa no fim das contas. Quem paga? O brasileiro que não foi consultado. Quem recebe? O político que colhe a imagem, o marqueteiro que a edita, a base que a compartilha sem perguntar o custo. A oração, se foi verdadeira, Deus aceita. A conta, porém, Ele não paga. Essa sobra para nós.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.