O sujeito que já governou o país por três mandatos, que presidiu o maior escândalo de corrupção da história nacional, que foi preso, solto por manobra processual e reeleito pelo voto de uma nação com memória de peixe dourado, acaba de anunciar que pretende concorrer mais uma vez. E não bastava dizer "quero o poder de novo", porque isso seria honesto demais. Não. Lula embalou a coisa toda em papel de presente celestial, falando em "compromisso moral e cristão" com o povo brasileiro. Moral e cristão. O homem que chefiou um partido que transformou a Petrobras em caixa dois ambulante agora fala em moral como quem cita o catecismo no confessionário, logo depois de ter roubado o cálice.
A justificativa, como de praxe, é o espantalho. O fascismo. Sempre o fascismo. A família Bolsonaro, diz ele, não pode voltar ao poder, e só a sua candidatura sagrada pode impedir o apocalipse. Repare na estrutura do argumento, porque ela é perfeita na sua desonestidade: eu preciso do poder para que o outro não tenha o poder. Não há programa, não há projeto, não há sequer a promessa de fazer algo diferente do que já fez. Há apenas o inimigo, cuidadosamente mantido vivo na retórica como um bicho-papão que justifica qualquer coisa. Todo tirano da história usou o mesmo truque. Não estou aqui porque quero; estou aqui porque vocês precisam de mim. O salvador indispensável que, por pura coincidência, nunca acha que chegou a hora de ir embora.
Mas sigamos a trilha do dinheiro, que é onde a comédia vira tragédia. Um quarto mandato de Lula significa a continuidade de uma máquina de transferência de renda que não vai do rico para o pobre, como a propaganda quer fazer crer, mas do pagador de impostos para o amigo do rei. Significa mais BNDES emprestando bilhões a juros de pai para filho a empreiteiras que, por acaso, financiam campanhas. Significa mais estatais inchadas servindo de cabide de emprego para a base aliada. Significa mais inflação para financiar o gasto público, mais regulação para sufocar quem produz sem pedir benção ao Estado, mais crédito subsidiado para quem tem o telefone certo na agenda. O pobre que vota nele ganha o Bolsa Família e paga três vezes mais caro no arroz, no gás e no ônibus. A conta nunca fecha porque não é para fechar. O déficit é o lucro de quem está por dentro.
A invocação de Deus merece um parágrafo à parte, porque tem uma desfaçatez que beiraria o cômico se não fosse tão calculada. O mesmo Lula que governa com o Centrão, que negocia cargo com quem quer que apareça com voto, que jamais vetou uma emenda de relator ou recusou um toma lá dá cá, agora fala em compromisso cristão. É o uso do sagrado como ferramenta de marketing eleitoral, e qualquer pessoa que leve a fé minimamente a sério deveria sentir náusea. Não existe compromisso cristão em buscar o poder pelo poder. Existe, sim, um velho truque retórico que consiste em vestir a ambição pessoal com roupa de sacrifício. O mártir voluntário que, coitado, só quer se sacrificar mais quatro anos no Palácio da Alvorada, com motorista, cozinheiro e cartão corporativo.
O que Lula fez foi eliminar a dúvida, conforme o título da notícia. Mas a dúvida que ele eliminou não é a que ele pensa. A dúvida eliminada é sobre a natureza do sistema político brasileiro: não existe alternância real de poder, existe rodízio de gestores do mesmo condomínio. Lula e Bolsonaro são os dois lados da mesma moeda estatal, cada um prometendo proteger o povo do outro enquanto os dois cobram pedágio. O contribuinte, esse animal de carga sobre cujo lombo se constrói toda a farsa, continua pagando a festa sem ser convidado. Quem paga? Você, que lê isto. Quem recebe? Quem sempre recebeu: quem tem acesso ao cofre. A única coisa que muda é o nome na porta.
Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.