O presidente da República foi ao Ceará, sorriu para as câmeras e elogiou os jovens cearenses aprovados no ITA com aquela graça de palanque que já conhecemos: "Não é só cabeça grande." A plateia riu. Os assessores aplaudiram. E ninguém, absolutamente ninguém, fez a pergunta que interessa: se esses jovens são tão brilhantes, por que o Brasil não consegue mantê-los aqui depois de formados? O presidente fala em "reter talentos" como quem fala em reter água numa peneira, sem jamais olhar para os furos. O furo se chama Estado brasileiro.

Vejamos a mecânica do espetáculo. Um político viaja com comitiva, pousa em solo alheio, sobe num palco e se apropria do mérito de famílias que acordaram de madrugada, de professores que ganharam salários miseráveis e de estudantes que ralaram anos a fio em salas sem ar-condicionado. O resultado do esforço privado, individual, sacrificial, é apresentado como vitória da "política educacional". É o truque mais velho do poder: colher onde não plantou e ainda pedir aplausos pela colheita. Todo regime faz isso. O faraó não carregou pedra nenhuma, mas a pirâmide leva o nome dele.

Agora observemos a contradição que ninguém no palanque ousou mencionar. O mesmo governo que diz querer "reter talentos" cobra de um engenheiro recém-formado mais de cinco meses de trabalho por ano só em impostos diretos e indiretos. O mesmo governo que aplaude aprovações no ITA mantém uma legislação trabalhista que transforma contratar alguém num ato de heroísmo empresarial. O mesmo governo que fala em inovação regula, tributa, licencia, carimba e fiscaliza qualquer tentativa de empreender até que o sujeito desista ou emigre. O talento cearense não foge do Ceará, foge do custo Brasil. E o custo Brasil tem nome, sobrenome e CNPJ: chama-se Brasília.

A fuga de cérebros não é um acidente, é uma consequência lógica. Quando você taxa a produção, subsidia a improdutividade e inflaciona a moeda para financiar o circo estatal, o sujeito inteligente faz a única conta racional disponível: compra uma passagem de ida. O Vale do Silício, Lisboa, Dublin e Toronto agradecem. Cada engenheiro do ITA que vai embora leva consigo o investimento que a família fez, o conhecimento que acumulou e o potencial produtivo que geraria aqui. O governo fica com o discurso. O exterior fica com o engenheiro. Pergunte a si mesmo quem saiu ganhando nessa equação.

O mais revelador, porém, é o reflexo pavloviano do político diante do sucesso alheio. Ele não consegue simplesmente reconhecer que aqueles jovens venceram apesar do sistema, não por causa dele. Precisa se inserir na narrativa, precisa transformar mérito individual em propaganda coletivista, precisa fazer parecer que sem a mão benfazeja do Estado aqueles cérebros jamais teriam florescido. É a velha lógica do sequestrador que, ao devolver o refém, exige gratidão pelo bom tratamento durante o cativeiro. O Estado cobra metade da riqueza, entrega um décimo em serviços e quer ser aplaudido pela diferença.

Se o presidente realmente quisesse reter talentos, a receita seria constrangedoramente simples: tire o pé do pescoço. Reduza impostos. Desregulamente. Pare de imprimir dinheiro. Deixe quem produz respirar. Mas isso, evidentemente, jamais será dito num palanque, porque um governo que liberta seus cidadãos da dependência estatal é um governo que perde o principal instrumento de poder, que é a própria dependência. O elogio aos alunos do Ceará foi sincero, não duvido. Mas a sinceridade do elogio não muda a perversidade do sistema que os empurrará para fora. Quem paga a formação é a família. Quem recebe o talento formado é o exterior. E quem fica com o crédito é o político no palanque. Como sempre.

Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.