Morreu Oscar Schmidt, e o ocupante do Palácio do Planalto correu ao teclado para lamentar, exaltar o legado, falar em amor à camisa, em orgulho nacional, em ídolo maior da história do basquete brasileiro. Tudo muito correto, tudo muito protocolar, tudo muito conveniente. Porque é sempre assim que funciona o ritual: o poder político procura se pendurar no caixão dos que foram grandes sem ele, na esperança de que um pouco daquela grandeza alheia respingue na biografia própria. É o velho truque do rei que não tem feitos, então cobre o peito com medalhas que pertenciam aos outros.

Convém lembrar, antes que a emoção atrapalhe o raciocínio, quem de fato foi aquele sujeito de dois metros e cinco. Oscar fez quarenta e nove pontos numa final olímpica, quarenta e seis contra a União Soviética em pleno auge da máquina estatal esportiva mais pesada do século vinte, e construiu uma carreira inteira arremessando contra sistemas gigantescos bancados por governos comunistas, ministérios de esporte, complexos industriais de medalhas. Ele venceu justamente o modelo que o Estado brasileiro hoje tenta vender como virtude. O paradoxo é delicioso e ninguém tem coragem de dizer em voz alta.

Pergunte a si mesmo, caro leitor, quanto custou Oscar ao contribuinte. Qual foi o programa federal que o produziu, qual foi a secretaria de inclusão esportiva que o descobriu, qual foi o fundo setorial que financiou seus arremessos de sete metros. A resposta é um silêncio constrangedor, porque Oscar veio de um tempo em que quadra era quadra, bola era bola, e talento se media em placar, não em relatório de impacto social assinado por doutor em políticas públicas. Nasceu em Natal, cresceu em São Paulo, jogou onde pagaram melhor, enriqueceu legitimamente vendendo seu dom num mercado que reconheceu o valor daquilo. Propriedade de si mesmo, troca voluntária, recompensa proporcional ao mérito. Tudo aquilo que o discurso oficial detesta quando não pode capturar.

E aí chegamos ao ponto que o obituário presidencial tenta enterrar junto com o morto. Enquanto o chefe do Executivo posta sua nota sentimental, a estrutura que ele comanda drena bilhões em Lei de Incentivo ao Esporte, Bolsa Atleta, Ministério do Esporte, confederações penduradas no orçamento, clubes amadores viciados em isenção, federações estaduais que existem para pagar diretoria. Resultado prático dessa indústria de boa intenção tributada: zero Oscares novos. Nenhum. A máquina engorda, os burocratas prosperam, as planilhas se alongam, e o próximo camisa quatorze não aparece, porque o dinheiro não forma talento, o dinheiro forma intermediário que vive de administrar o talento que a natureza sorteou sozinha.

Há algo de profundamente cômico, e também de profundamente revelador, em ver o representante máximo do confisco organizado prestar homenagem a um homem cuja grandeza foi exatamente escapar da tutela. Oscar não precisou de decreto para ser Oscar. Não foi criado por cota, por edital, por ação afirmativa esportiva, por gabinete de gestão do alto rendimento. Foi criado por si mesmo, por seus pais, por treinadores que ele escolheu, por clubes que o contrataram em contratos privados, por mercados estrangeiros que pagaram melhor que o nosso. O Estado brasileiro, na carreira dele, foi detalhe de paisagem, no máximo cobrador de imposto na hora do cachê. E é esse mesmo Estado que agora quer posar de herdeiro espiritual do falecido.

Aprenda a ler esses obituários oficiais como quem lê bula de remédio, prestando atenção no que não está escrito. Não se fala da excelência que surgiu apesar do governo, fala-se de amor à seleção como se seleção fosse propriedade do Planalto. Não se fala do mercado que remunerou o gênio, fala-se de patriotismo como se patriotismo fosse monopólio do partido no poder. O morto vira adereço, a biografia vira cenário, e a conta continua chegando pelo boleto do IPTU, do ICMS, do imposto de renda, da inflação que come o salário enquanto o ministério do esporte discute gênero da bola. Oscar merecia homenagem sincera. Recebeu propaganda. E você, como sempre, paga a nota.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.