Quinze ministros. Não cinco, não oito, não dez. Quinze. O presidente Lula decidiu que uma viagem à Europa exige a mobilização de quase metade do primeiro escalão da República. É a maior comitiva ministerial do mandato, um recorde que ninguém pediu e que todo pagador de impostos vai financiar sem ter sido consultado. Passagens aéreas em classe executiva, diárias em hotéis europeus, segurança reforçada, assessores dos assessores, motoristas, tradutores, o circo completo. Tudo isso sai do Tesouro Nacional, que é apenas um nome elegante para o bolso de quem acorda às cinco da manhã para trabalhar em São Paulo, Goiânia ou Manaus.
A pergunta que ninguém na grande imprensa faz é a mais elementar de todas: por quê? Por que quinze ministros precisam cruzar o Atlântico ao mesmo tempo? Qual a função do ministro do Desenvolvimento Agrário numa reunião diplomática em capital europeia? Qual a contribuição insubstituível do ministro da Igualdade Racial numa negociação comercial? A resposta é simples e ninguém ousa dizê-la: não precisam. A comitiva inflada não é necessidade administrativa, é ostentação política. É o monarca exibindo a extensão da sua corte para impressionar os anfitriões e, de quebra, manter os cortesãos por perto, alimentados, satisfeitos e longe de qualquer tentação de articulação doméstica. Luís XIV fazia exatamente o mesmo em Versalhes, só que ao menos tinha a honestidade de não chamar aquilo de "agenda republicana".
Sigamos o dinheiro, que é onde a verdade sempre mora. Uma viagem presidencial à Europa com comitiva reduzida já custa alguns milhões de reais. Com quinze ministros, cada qual com seu séquito de assessores especiais, secretários executivos e eventual cônjuge em "agenda paralela", o custo se multiplica de forma que o governo jamais terá interesse em detalhar. E não detalhará. O Portal da Transparência, aquele monumento à opacidade que o governo chama de prestação de contas, só registrará os valores meses depois, diluídos em rubricas genéricas como "despesas com deslocamento institucional". É a velha mágica contábil do setor público: gastar muito, registrar pouco, explicar nunca.
O que mais irrita não é o gasto em si, embora ele seja obsceno num país onde o salário mínimo mal cobre o aluguel de um quarto em cidade média. O que irrita é a naturalidade. É o fato de que nenhum jornalista da comitiva oficial vai perguntar ao presidente por que ele precisa de quinze ministros numa viagem que líderes de países sérios fazem acompanhados de dois ou três auxiliares diretos. Angela Merkel governou a maior economia da Europa viajando com equipes enxutas. O primeiro-ministro japonês leva meia dúzia de assessores. Mas o Brasil, esse país onde falta remédio em posto de saúde e a estrada mata mais que a violência urbana, precisa despachar um batalhão ministerial para fazer sala em jantares diplomáticos. A desproporção entre a pompa da viagem e a miséria que ela ignora não é acidental. É a essência do sistema.
Existe um padrão que qualquer pessoa com dois neurônios funcionais reconhece: quanto maior a comitiva, menor o resultado concreto. Viagens presidenciais com delegações enormes raramente produzem acordos que não poderiam ser fechados por embaixadores competentes, que é exatamente para isso que embaixadores existem. O que produzem, invariavelmente, é foto, nota oficial e a sensação reconfortante de que "o Brasil está no cenário internacional". Traduzindo do diplomatês para o português: o presidente passeou, os ministros comeram bem, e você pagou. Quando o avião pousar de volta em Brasília, nenhum emprego terá sido criado por causa dessa viagem, nenhum centavo a mais terá entrado no caixa do país, mas o cartão corporativo da República terá sido generosamente exercitado em três países europeus. O contribuinte, esse personagem invisível que sustenta toda a máquina, não foi convidado para a viagem, mas pode ficar tranquilo: a conta chegará pontualmente no fim do mês, embutida em cada litro de gasolina, cada quilo de arroz e cada centavo de imposto que ele jamais conseguirá deixar de pagar.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.