Rodrigo Manga, prefeito de Sorocaba e celebridade do TikTok com mandato municipal, concedeu recentemente o que provavelmente considera um elogio político da maior envergadura: afirmou que Lula "melhorou nas redes sociais" e que acerta ao fazer vídeos na academia e correndo. Elogiou ainda as dancinhas de Flávio Bolsonaro. Guarde bem esse momento. Não porque seja inédito, mas porque raramente a decadência de uma classe política inteira se expõe com tamanha desinibição, com tamanha honestidade acidental. O homem disse exatamente o que pensa, e o que ele pensa é isso: que a régua do estadismo, em 2026, é a desenvoltura diante de uma câmera de celular.
Há uma lógica aqui, e ela é devastadora quando você a segue até o fim. Se o critério para avaliar um presidente é sua performance num reels, então toda a arquitetura do debate político, os programas, as contas públicas, a dívida, a inflação dos alimentos, a carga tributária que estrangula o pequeno empresário, o tamanho do Estado que cresce enquanto o cidadão encolhe, tudo isso se torna irrelevante. O que importa é o carisma. O que importa é a dança. E aqui chegamos ao centro do problema: esse não é um critério que nasceu ontem. Imperadores romanos descobriram há dois mil anos que pão e circo seguram multidões melhor do que qualquer argumento de razão. A novidade é que agora o circo cabe no bolso e o pão virou conteúdo patrocinado com verba de comunicação institucional do governo federal.
Manga não é bobo, e seria um erro tratá-lo como tal. Ele é um sintoma articulado. Um político que entendeu o jogo de sua geração e o joga com competência clínica. Quando elogia Lula no TikTok e Flávio Bolsonaro na dança, não está sendo ingênuo nem conciliador. Está fazendo o que qualquer animal político faz quando fareja mudança de vento: sinaliza para todos os lados ao mesmo tempo, sem se comprometer com nenhum. É o centrismo não como posição filosófica, mas como técnica de sobrevivência. O problema não é que Manga seja oportunista, afinal, isso é esperado de qualquer criatura que vive de eleição. O problema é que o ambiente político brasileiro recompensa o oportunismo com curtidas, com alcance orgânico, com popularidade e, eventualmente, com votos. A degeneração não está no político. Está no sistema que o seleciona.
Siga o dinheiro, que é sempre onde a história fica interessante. O governo federal gasta somas que constrangem qualquer auditoria séria em comunicação institucional, em influenciadores contratados, em produção audiovisual para plataformas digitais. Enquanto a câmera enquadra o presidente de setenta e oito anos numa esteira e a narrativa celebra o "carisma", o orçamento público segue sua trajetória conhecida: crescente, desordenado, sustentado por dívida que as gerações futuras pagarão sem nunca ter votado nela. A performance nas redes é uma função do gasto público. Não é gratuita. Tem câmera, tem luz, tem equipe, tem estratégia, tem contrato, tem nota fiscal. O contribuinte financia o show e depois é elogiado por achar o show bom. É o nível mais refinado do roubo institucionalizado: fazer a vítima aplaudir o processo.
O verdadeiro escândalo desta história não é Manga ter dito o que disse. O escândalo é que ele não estava errado sobre o diagnóstico, apenas confortável demais com ele. Lula, de fato, melhorou nas redes sociais. Flávio Bolsonaro, de fato, faz suas dancinhas com desenvoltura. E uma parcela considerável do eleitorado brasileiro, de fato, avalia seus representantes por esses critérios. Quando a política vira entretenimento, o entretenimento vira política, e o cidadão que deveria ser o fiscal do poder público vira audiência passiva de um reality show cujos gastos ele paga compulsoriamente, sem possibilidade de trocar de canal. A diferença entre uma república e um espetáculo é que na república o povo governa, e no espetáculo o povo aplaude. O Brasil de 2026 está, claramente, muito mais próximo do segundo.
O prefeito tiktoker de Sorocaba encontrou sua tribo. E a tribo é grande. É bem-humorada. Dança bem. Não lê as notas de empenho, não cruza as contas, não questiona de onde vem o dinheiro do figurino nem para onde vai o da conta de luz. Prefere o meme ao mérito, a dança ao debate, o carisma à competência. Enquanto isso, os números reais, aqueles que não cabem em trinta segundos de vídeo e não têm trilha sonora de funk, continuam fazendo o que números fazem: acumulando, crescendo e esperando a conta chegar. E ela sempre chega. Geralmente quando o show já acabou e os palhaços já foram embora.
Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.