Existe um momento preciso em que a diplomacia deixa de ser política externa e se torna apenas política, sem o "externa". No sábado, dia dezoito de abril, o presidente do Brasil estará em Barcelona, num evento chamado Fórum da Democracia, trabalhando nos bastidores para convencer chefes de Estado a apoiarem uma candidata específica a um cargo específico numa organização que consome bilhões de dólares por ano para produzir, com fidelidade admirável, relatórios que ninguém lê, resoluções que ninguém cumpre e reuniões que todos frequentam porque o per diem é generoso. A candidata é Michelle Bachelet, ex-presidente do Chile, ex-Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, e atual representante de um tipo muito particular de carreira política: aquela que nunca termina porque sempre há um cargo multilateral disponível quando o mandato nacional acaba.
Comecemos pela geometria do arranjo, porque a geometria raramente mente. António Guterres, o atual secretário-geral da ONU, é português, socialista, ex-presidente da Internacional Socialista. Sua sucessora preferencial, segundo o governo brasileiro, é chilena, socialista, e foi nomeada para seu cargo na ONU pelo próprio Guterres. Lula, que articula a candidatura, é brasileiro e socialista. O fórum onde isso será discutido acontece em Barcelona, cidade governada por coalizão de esquerda, numa Espanha também governada pela esquerda. Alguém poderia perguntar se existe algum elemento nessa equação que não seja de esquerda. A resposta é: o dinheiro. O dinheiro é de todo mundo, inclusive de quem vota em outros partidos, inclusive de quem não vota, inclusive de quem discorda radicalmente de cada um dos presentes em Barcelona. Essa é a beleza do imposto compulsório: ele financia até o que você abomina, e você paga sorrindo porque a lei diz que sim.
A ONU custa, só em contribuições regulares, cerca de três bilhões de dólares por ano, fora os orçamentos de operações de paz, agências especializadas e fundos paralelos que multiplicam esse número por quatro ou cinco. O Brasil é um dos maiores contribuintes da América Latina. Cada real que entra nessa conta saiu do bolso de alguém que acorda cedo, paga nota fiscal e provavelmente nunca foi convidado para nenhum fórum em lugar nenhum. Em troca, o país recebe representação diplomática, assento em conselhos, influência retórica e, agora, a oportunidade de gastar mais capital político para emplacar uma candidata que, se eleita, administrará esse mesmo dinheiro por cinco ou dez anos a partir de Nova York. O ciclo fecha com elegância de relógio suíço: o pobre paga, o político viaja, o burocrático governa.
Há um detalhe na trajetória de Bachelet que merece atenção, não por crueldade, mas por honestidade intelectual. Quando estava à frente do escritório de direitos humanos da ONU, sua gestão produziu um relatório sobre a China, publicado nos últimos dias de seu mandato, que foi imediatamente criticado por organizações de direitos humanos, incluindo as que costumam aplaudir a ONU, por ser excessivamente suave diante das evidências de crimes contra a população uigur em Xinjiang. O relatório chegou, concluiu pouca coisa e foi engavetado pela marola do tempo burocrático. Ninguém foi punido, nenhuma resolução foi aprovada, nenhum dólar de contribuição foi suspenso. A pergunta que o jornalismo honesto deveria fazer é: por que a candidata apoiada pelo governo brasileiro tem em seu currículo recente exatamente o tipo de omissão que a ONU deveria combater? A resposta, naturalmente, não está nos valores. Está no mapa de alianças.
O "Fórum da Democracia" é, em si mesmo, um objeto de estudo. Reúne líderes que, com honrosas exceções, chegaram ao poder pela democracia mas demonstram, no exercício desse poder, uma relação com a liberdade individual que vai de tensa a francamente hostil. Chamar isso de fórum da democracia é como chamar um encontro de cardiologistas de fórum da saúde cardiovascular e descobrir, no buffet, que estão servindo exclusivamente frituras. O nome é a aspiração, a prática é outra coisa. E é nesse ambiente que o presidente do Brasil circulará, apertará mãos, fará promessas de voto e consumirá recursos públicos em nome de um objetivo que, por mais que se esforce, não encontrará linha no Diário Oficial do Brasil que justifique como prioridade nacional. A não ser, claro, que a prioridade nacional seja manter o time unido.
No fim, o que está acontecendo em Barcelona é a cerimônia de renovação de um contrato antigo entre o poder político e a burocracia internacional: você nos dá legitimidade, nós te damos cargo. O secretário-geral da ONU não é eleito pelo povo de lugar nenhum, não presta contas a eleitor nenhum e não pode ser destituído por nenhuma vontade popular. É o cargo mais blindado do planeta, protegido pela solenidade do multilateralismo e pelo constrangimento diplomático de questionar qualquer coisa que carregue o logo azul. Que um governo apresente um nome para esse cargo diz muito sobre que tipo de poder esse governo admira: aquele que não tem prazo, não tem oposição e é pago por outros. Quem paga? Você, como sempre. Quem recebe? Já sabe a resposta.
Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.