Nesta segunda-feira, o ocupante do Planalto recebe a ex-presidente chilena para articular sua candidatura à secretaria-geral da ONU. O comunicado oficial vem embrulhado em papel celofane de causas nobres, direitos humanos, multilateralismo, gênero, paz, blá-blá-blá. Por trás do celofane, contudo, há a velha mecânica de sempre: um clube de ex-governantes de centro-esquerda trocando cadeiras num cartório que cobra do contribuinte do mundo inteiro a conta de um serviço que ninguém pediu e que ninguém consegue cancelar.

Vale a pergunta que toda análise honesta deveria começar e terminar: quem paga e quem recebe? Paga o brasileiro que entrega quase metade do que produz para um Leviatã insaciável, e que ainda tem o privilégio de financiar a contribuição compulsória do país a um órgão sediado em Manhattan onde diplomatas isentos de impostos discutem se a fome do Saara é culpa do clima, do colonialismo ou da próxima resolução não vinculante. Recebe uma senhora de currículo previsível, que governou o Chile duas vezes, presidiu o conselho de direitos humanos da própria ONU, e que agora colhe a aposentadoria mais bem remunerada do planeta na forma de um cargo vitalício de relações-públicas global.

Convém olhar o silogismo sem o verniz: toda burocracia internacional vive de impostos arrancados sob ameaça de violência aos cidadãos dos países membros; a ONU é uma burocracia internacional; portanto, a ONU vive de dinheiro extorquido. A conclusão é desconfortável, mas a lógica não admite negociação. E quando se escolhe o gestor dessa máquina, o critério oficial é o mérito, mas o critério real é a aliança ideológica. Não foi acaso que o sujeito que conduzia o país tropical entregue à pirâmide de Brasília tenha se autoeleito cabo eleitoral da candidatura: ele sabe perfeitamente que carimbos da ONU servem de munição doméstica, de blindagem contra críticas internas, de selo de boa conduta quando o STF aperta o garrote contra opositores.

Há também a coreografia histórica, que se repete como farsa porque nunca foi outra coisa. Lembremos do antecessor argentino convidado a ocupar postos em organismos multilaterais sempre que seu projeto político precisava de oxigênio. Lembremos dos ex-mandatários europeus reciclados em cargos do FMI, do Banco Mundial, da OCDE, sempre quando o eleitorado de casa decidiu agradecer pelos serviços prestados convidando-os a procurar outra freguesia. O globo terrestre é uma cooperativa de aposentados políticos, e a ONU é a sede do sindicato. O contribuinte chama isso de organismo internacional; o operador político chama isso de aposentadoria de luxo com motorista, segurança e palco permanente.

Não custa lembrar o que essa candidata fez quando comandou a comissão de direitos humanos da ONU: produziu um relatório sobre o tratamento de minorias na China que, segundo a própria imprensa de centro-esquerda, foi suavizado, adiado e amaciado depois de visitas a Pequim. Quem paga o sapo dourado decide a cor do brejo. Eis, em estado de pureza laboratorial, o que se vende como diplomacia humanista: o regime que financia, hospeda e influencia recebe um boletim aceitável; os países pequenos sem cofre de bilhões recebem broncas eloquentes em conferências. A balança não pesa princípios, pesa cheques.

Resta a pergunta, sempre a mesma, com a qual se abre e se fecha qualquer análise séria sobre o teatro internacional: quem paga e quem recebe? Paga o pagador de impostos do Brasil, do Chile, dos Estados Unidos, da Europa, suados, calados, ignorados. Recebe uma casta itinerante que troca passaporte por carimbo e carimbo por relevância. O resto é cerimônia, e cerimônia bem-feita é a melhor distração que o poder já inventou desde que os faraós descobriram que pirâmides intimidam mais do que decretos.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.