Sexta-feira, 24 de abril. O ocupante do Palácio do Planalto desembarca em São Paulo, entra num hospital, retira uma lesão cancerosa do couro cabeludo, recebe uma infiltração no punho, ganha alta no mesmo dia e, no domingo, retorna à capital federal como quem volta de um almoço de família. Tudo limpo, tudo elegante, tudo coberto pela imprensa palaciana com aquele tom devocional reservado aos santos vivos. O fato em si é banal, milhões de brasileiros enfrentam câncer de pele e tendinite todo ano. O que não é banal é a coreografia. O que não é banal é a conta.

Repare na engenharia silenciosa por trás do espetáculo. Avião da Força Aérea, equipe médica de plantão, segurança presidencial mobilizada, hospital em estado de exceção, comboio, escolta, comunicação oficial, assessoria de imprensa redigindo boletins como se fossem encíclicas. Cada uma dessas peças tem preço, e nenhuma delas sai do bolso do paciente. O paciente, neste caso, voa de graça, é tratado com prioridade absoluta, e ainda transforma a doença em ato de governo. O cidadão que paga imposto sobre o sal de cozinha é quem custeia o turismo medicinal do chefe. A doença é dele, a fatura é nossa.

Há quem diga que isso é normal, que todo presidente do mundo tem prerrogativas semelhantes, que o cargo exige proteção excepcional. Argumento preguiçoso. A questão não é se a função pública demanda estrutura, é por que essa estrutura cresce indefinidamente, blindada de qualquer auditoria séria, enquanto o sistema público de saúde que sustenta o discurso eleitoral do mesmo ocupante não tem gaze, não tem leito, não tem anestesista. O homem que jura pelo SUS opera fora do SUS. O silogismo se monta sozinho: quem confia no próprio remédio toma o próprio remédio; ele não toma; logo, ele não confia. O resto é teatro para os trouxas.

E aqui mora a contradição que ninguém nos noticiários ousa apontar, porque apontar custa contrato, custa anúncio, custa convite para café no Planalto. A elite política brasileira construiu para si uma república paralela, com hospital paralelo, avião paralelo, aposentadoria paralela, justiça paralela. Lá dentro, o câncer é retirado em ambulatório de luxo na sexta e o sujeito está em casa no domingo. Cá fora, o aposentado que pagou INSS por quarenta anos morre na fila do mutirão de catarata. São dois países sobrepostos, e o de baixo financia o de cima com a regularidade de um relógio suíço.

O mais cômico, porque a comédia é sempre o último recurso da inteligência diante do absurdo, é o tom edificante das manchetes. O presidente venceu mais essa, o presidente é forte, o presidente está pronto para os desafios. Como se a saúde pessoal de um agente político fosse mérito biográfico e não mera estatística atuarial. Reis medievais também eram declarados invencíveis pelos seus cronistas, até o dia em que a gangrena vencia. A diferença é que o súdito medieval pelo menos sabia que era súdito. O brasileiro contemporâneo paga pela coroa e ainda agradece pelo privilégio de assistir à cerimônia.

Volte sempre à pergunta original, porque ela é a única que importa quando o poder se mexe. Quem paga? O contribuinte, sempre o contribuinte, esse personagem invisível que sustenta a festa e nunca é convidado para ela. Quem recebe? O ocupante do cargo, a corte que o cerca, os fornecedores credenciados, a imprensa que cobre tudo com luvas de pelica. Um couro cabeludo foi limpo na sexta. O do pagador de impostos continua coçando, e ninguém marca cirurgia para ele.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.