O roteiro foi perfeito, quase cirúrgico na sua desfaçatez. No meio do deserto californiano, com uma multidão que desembolsou centenas de dólares para ver a apresentação de uma cantora específica, surge a veterana do pop para anunciar que tem um disco novo, um single fresco chamado I Feel So Free, e um álbum com nome de sequência de balada antiga, Confessions II. A plateia pagou ingresso para A, recebeu um comercial de B, e saiu de lá achando que testemunhou um momento histórico. É o marketing vendido como epifania, a publicidade travestida de milagre.
Convém olhar para o arranjo sem o deslumbramento que a indústria exige do consumidor. Um festival que fatura centenas de milhões por edição não convida uma artista do porte dela para fazer caridade cultural. Há contratos, há cláusulas, há percentuais, há acordos de streaming calibrados para o instante exato em que o celular de cada fã na pista vai correr para as plataformas digitais procurar a música recém-anunciada. O que parece espontaneidade é planilha. O que parece presente é fatura. A surpresa é o produto mais caro da prateleira, porque é o único que o cliente paga sem perceber que comprou.
Pense no antigo ritual dos bufões nas cortes europeias, quando o rei mandava chamar o artista favorito não porque amava arte, mas porque precisava lembrar aos vassalos quem mandava no espetáculo. A lógica é a mesma, apenas trocou de figurino. A diferença é que os vassalos de hoje pagam para entrar na corte, filmam com telefones de dois mil dólares e ainda agradecem o privilégio de servir como figurantes num comercial de quatro minutos. O súdito moderno não é coagido pela espada, é seduzido pelo algoritmo, e o resultado é o mesmo: ele trabalha de graça para engordar o patrimônio alheio.
A estrutura é lógica e implacável. Se todo aparecimento surpresa de uma artista que lançou álbum na semana anterior é coincidência, então a indústria fonográfica é regida pelo acaso, o que é absurdo diante de qualquer relatório financeiro das gravadoras. Logo, não é coincidência, é estratégia. E se é estratégia, alguém desenhou, alguém aprovou, alguém assinou o cheque. O fã que se emociona está consumindo um produto cuja fórmula ele desconhece, e a magia só funciona enquanto ele não pergunta quem está ganhando com o seu êxtase. No instante em que pergunta, o encanto some e sobra a contabilidade.
O mais saboroso é o unanimismo da cobertura. A imprensa de entretenimento, que deveria ser o primeiro filtro crítico entre o público e a máquina comercial, virou o departamento gratuito de divulgação da máquina comercial. Não existe reportagem, existe release reformatado. Não existe análise, existe entusiasmo treinado. Quando todo mundo aplaude ao mesmo tempo, na mesma hora, com as mesmas palavras, é porque alguém distribuiu o roteiro antes, e quem não seguiu não recebe convite para a próxima cobertura exclusiva. A imprensa cultural virou claque paga por ingresso, e a claque sempre aplaude quem paga a conta.
Então a pergunta que inaugurou o texto volta para fechá-lo, porque ela nunca sai de cena. Quem pagou? Os fãs com ingressos caríssimos, o público de streaming que ainda nem ouviu o disco mas já vai engordar os números, os anunciantes que bancam o festival, os contribuintes californianos que custeiam segurança pública e infraestrutura para o espetáculo privado acontecer. Quem recebeu? A artista da aparição, a gravadora dela, a organização do festival, as plataformas digitais, a indústria inteira que transformou emoção genuína em linha de receita. O rei continua nu, só mudou de vestido, e segue cobrando ingresso para que o admirem.
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.