A Madrigal Pharmaceuticals apareceu na conferência da Cantor em Nova York com o discurso de sempre nesse tipo de vitrine, crescimento acelerado do Rezdiffra para esteato-hepatite associada à disfunção metabólica, ampliação de cobertura por planos e sistemas públicos, e um pipeline de moléculas que promete transformar o tratamento do fígado gorduroso nos próximos anos. Investidor gosta, ação sobe, analista de sell side reescreve a tese de bull case, e todo mundo sai de lá com a sensação reconfortante de que a ciência venceu mais uma. Bonito. Só que a parte interessante da história não está no slide da pipeline, está na letra miúda da palavra acesso.

Quando um executivo de farma sobe ao palco e comemora que "o acesso está expandindo", ele não está dizendo que o remédio ficou mais barato. Está dizendo que conseguiu convencer mais pagadores institucionais, seguros privados nos Estados Unidos, Medicare, sistemas públicos europeus e, no limite, o SUS de países como o nosso, a incorporarem a droga em suas listas de reembolso. Traduzindo do idioma corporativo para o português dos mortais, alguém que não é o paciente vai pagar a conta de uma terapia que custa em torno de quarenta e sete mil dólares por ano por cabeça. E esse alguém, no fim da linha, é sempre o mesmo sujeito, o pagador de imposto, o segurado que vê o prêmio do plano subir, o trabalhador cujo salário some antes de chegar ao banco.

É aqui que a mágica do capitalismo de compadrio farmacêutico funciona com a elegância de um relógio suíço. A empresa investe pesado em pesquisa, é verdade, e ninguém aqui está pedindo que ela distribua remédio de graça. O problema não é o lucro, é o arranjo. Um sistema regulatório que garante monopólio de vinte anos via patente, um FDA que aprova em regime acelerado com endpoint substituto, uma cadeia de gestores de benefício farmacêutico que negocia rebates opacos, e no final do circuito uma conta pública ou parapública que absorve o custo enquanto o acionista embolsa o retorno. Lucro privatizado, custo socializado, e o auditório da Cantor batendo palma para o próximo trimestre.

Olha, o mais engraçado é a naturalidade com que a plateia trata isso como sinônimo de progresso civilizatório. Ninguém pergunta quantos hospitais deixaram de ser construídos, quantas cirurgias eletivas ficaram na fila, quantos medicamentos mais baratos e igualmente eficazes foram preteridos porque o orçamento de saúde precisou acomodar mais um blockbuster de preço estratosférico. Aquilo que não aparece na tela do apresentador simplesmente não existe para efeitos de debate público. O emprego criado na sede da farma em Conshohocken é visível, o hospital de interior que fechou porque o repasse minguou não é. E assim seguimos, celebrando o que se vê e ignorando religiosamente tudo o que se deixa de fazer.

Me diz uma coisa, se o Rezdiffra fosse mesmo o milagre que os slides sugerem, precisaria de tanto lobby regulatório, tanto acordo confidencial com pagador, tanta ginástica de precificação diferenciada por país? Um produto que se justifica pelo valor entregue negocia como qualquer outro no mercado aberto, com preço formado por concorrência e alternativa. Um produto que depende de patente estendida, incorporação compulsória em formulários e barreira de entrada regulatória para genéricos e biossimilares está pedindo, no fundo, uma coisa só, que o Estado use sua força coercitiva para garantir a margem que o mercado livre não garantiria. E o Estado obedece, porque a captura do regulador pelo regulado é a lei mais confiável da economia política moderna.

O pipeline da Madrigal pode ser tudo aquilo que prometeram, e provavelmente ajudará pacientes reais com doenças reais, isso é fato e não convém negar. Mas quando o próximo colunista econômico escrever que a companhia representa a fronteira da inovação, lembre-se de que fronteira de verdade é aquela onde produtor e consumidor se encontram sem intermediário fardado. O que se viu em Nova York foi outra coisa, foi um ritual bem coreografado onde a inovação serve de fachada para um arranjo em que ganham três atores, o executivo com seu bônus atrelado ao stock option, o burocrata sanitário que garante sua relevância aprovando terapias caras, e o acionista que aplaude sabendo que o risco de mercado foi socializado décadas atrás. O paciente entra na história como personagem coadjuvante, o pagador de imposto sequer é convidado para a estreia.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.